TRATOLIXO – O FIM DE UMA
ESTRATÉGIA DE RESÍDUOS SÓLIDOS URBANOS
A Estratégia definida em 2003
para os resíduos sólidos urbanos dos municípios de Cascais, Mafra, Oeiras e
Sintra morreu.
As alterações que lhe foram
introduzidas a partir de 2007 transformaram uma Estratégia numa manta de
retalhos sem nexo ambiental e operacional mas, acima de tudo,
sem sustentabilidade financeira.
Acredito que neste caso, como em
todos, há uma clara falha de informação a todos os que pagam estas faturas
- os munícipes - e entendo ser meu dever de cidadão partilhar a
informação que tenho sobre este assunto.
Não tenho a verdade absoluta, mas
recuso-me a aceitar que alguns "iluminados" tentem enfiar um barrete
até aos pés dos contribuintes líquidos para este sistema.
Depois de ter editado um livro no
final de 2010 sobre este tema, entendi ser meu dever disponibilizar essa
informação livremente neste blog e acomodar aqui a sua discussão livre e
franca, assunto que me é querido, ao qual dediquei alguns anos de trabalho, e
que vejo tão mal tratado, sem objetivos lógicos, sem determinação, sem perseverança.
Espero sinceramente que esta
minha disponibilidade seja vista como um contributo para a consciencialização
dos munícipes para o tema e para construir uma opinião sobre as soluções mais
desejáveis.
Se este objetivo for alcançado,
fico satisfeito.
1. INTRODUÇÃO
A Tratolixo em Março de 2003,
desenvolveu um Plano Estratégico para os Resíduos de Cascais, Mafra,
Oeiras e Sintra (PERECMOS) que assentava nos seguintes pressupostos
fundamentais:
1 – Promover a separação
multimaterial e por essa via valorizar através da reutilização ou da
reciclagem a maior percentagem possível dos resíduos recebidos no sistema;
2 – Utilizar soluções de
tratamento que amplifiquem o objetivo primeiro e que minimizem o recurso a
Aterro;
3 – Considerar a opção
valorização energética apenas para os resíduos para os quais não seja
possível ou rentável a sua reciclagem ou recuperação;
Esta estratégia, que veio a ser
aprovada pela AMTRES em Setembro do mesmo ano, implicou uma aposta muito
forte nas recolhas de recicláveis e no desenho de uma solução de
tratamento que complementasse a capacidade existente no TMB (Tratamento
Mecânico e Biológico) em Trajouce com uma unidade de Digestão Anaeróbia e
um Aterro para os rejeitados do processo.
A reformulação preconizada
implicava um forte investimento, na altura avaliado em 165 milhões de
euros, facto que se tornou evidente não ser possível exigir esse esforço
aos acionistas, por manifesta indisponibilidade de recursos desta ordem de
grandeza, já que os apoios comunitários conseguidos para este investimento
se ficaram por 25 milhões de euros, correspondentes ao financiamento da
Digestão Anaeróbia.
O passo seguinte foi encontrar
uma solução que viabilizasse esta estratégia e que consistiu em passar
para a Tratolixo a responsabilidade de gestão do sistema, através do
estabelecimento de um Contrato-Programa, permitindo que esta empresa pudesse
negociar um Project Finance e dessa forma garantir o
financiamento do PERECMOS – Plano Estratégico de Resíduos de Cascais,
Mafra, Oeiras e Sintra.
A sustentabilidade deste Plano
assentava num substancial aumento de receitas com a venda de recicláveis,
fruto das metas ambiciosas que o PERECMOS previa, e com a entrada em
funcionamento da Digestão Anaeróbia e do Aterro de apoio em 2008. O
Project Finance pressupunha ainda o alisamento da Tarifa a praticar ao
longo da sua duração, com uma variação de 25 € a 29 €/ton, a preços
constantes, durante 20 anos.
Para o sucesso desta estratégia
existiam um conjunto de fatores que eram imprescindíveis garantir sem o
que o cumprimento do PERECMOS poderia ser posto em causa, bem como a
estabilidade do Project Finance.
Para o cumprimento das metas,
previstas no PERECMOS era fundamental assegurar:
Ø Sintonizar
os quatro municípios para as ações conducentes ao aumento das recolhas seletivas;
Ø As
recolhas dos recicláveis deveriam ser estrategicamente concentradas numa
mesma entidade, sob a esfera da Tratolixo, para que em constante
monitorização fossem tomadas as medidas necessárias conducentes ao
cumprimento das metas;
Ø Assegurar
a alteração dos hábitos dos munícipes através de uma estratégia única de
sensibilização;
Ø Assegurar
que os fluxos financeiros dos Municípios para a Tratolixo não sofriam
constrangimentos.
2. HISTÓRICO
Convirá aqui fazer uma análise,
ainda que sumária, ao status quo do sistema à data de
2003 e apreciar o estado da arte, os constrangimentos existentes e a
revolução esperada com a aprovação do PERECMOS.
Este sistema sempre viveu uma
profunda dificuldade de concertação estratégica e de soluções a
implementar, tendo ao longo dos anos cada um dos municípios efetuado a sua
“viagem”, à velocidade que cada um quis implementar, com as soluções e as
práticas geridas de forma autónoma.
Embora a AMTRES, Associação de
Municípios para o Tratamento de Resíduos de Cascais, Mafra, Oeiras e
Sintra, desde sempre e em termos estatutários fosse a entidade
coordenadora do sistema, e fosse sua a responsabilidade da gestão, nunca
assumiu esse papel, mantendo-se exclusivamente como um órgão político, com
todas as dificuldades que esta atitude sempre criou. Com cada município a
enveredar pela sua solução, é óbvio que a coordenação era impossível.
Nos anos noventa, Oeiras era
claramente o município mais avançado nas boas práticas ambientais.
Precursor das recolhas porta-a-porta e das recolhas seletivas nos médios e
grandes produtores, este município manteve sempre uma atitude pró ativa,
apenas alterando a sua postura no mandato 2006/2009 que agora findou,
regredindo significativamente nas boas práticas, e sendo um dos principais
motores na alteração estratégica realizada no sistema em 2007 e que, na
nossa ótica, foi em muitos aspetos um retrocesso.
Se os quatro municípios
assumissem comportamentos semelhantes ao demonstrado nos anos noventa pelo
de Oeiras certamente o PERECMOS, tal como foi concebido inicialmente,
teria sido um êxito!
Os outros três municípios viviam
realidades distintas que importa apreciar.
O município de Cascais mantinha
um contrato de prestação de serviços com a SUMA na área da limpeza urbana
e recolha de resíduos, em muitos aspetos com características ruinosas
(como veio em 2005 a ser provado com a constituição de uma
empresa municipal – a EMAC - que garantiu uma profunda melhoria na
qualidade e quantidade de serviços prestados associado a uma diminuição da
fatura de cerca de 5 milhões de euros por ano!).
A realidade então vivida mantinha
uma tímida aposta nas recolhas seletivas, com um rácio na ordem de um
conjunto de ecopontos por mais de 500 habitantes.
Também Sintra vivia um estágio
embrionário no que respeita a recolhas seletivas.
Um concelho dividido em duas
partes, uma gerida pela HPEM e outra pela SUMA, ambas com muito pouca
expressão ao nível das recolhas seletivas.
O equipamento de recolha seletiva
era pouco e envelhecido, o que fez com que Sintra garantisse desde sempre
dos mais baixos rácios de recolha seletiva per capita em
contraponto ao facto deste município representar 42% da totalidade dos
resíduos existentes no sistema!
Por último Mafra, com um contrato
de prestação de serviços com a empresa Ecoambiente, em que em termos de
recolhas seletivas era o município que se encontrava numa fase mais
incipiente, onde o esforço realizado era praticamente relativo ao vidro.
A este panorama ao nível das
recolhas há que juntar um deficiente investimento de todos os municípios
em sensibilização.
Ações desenvolvidas apenas no
âmbito de cada município, muito focalizados na escola e na educação
ambiental das crianças, eram claramente insuficientes para promover a
revolução dos hábitos.
A dificuldade de coordenação
entre os quatro municípios já referida, foi também sempre bem patente no
desenvolvimento de soluções de tratamento para este sistema.
Cascais deu o primeiro passo ao
disponibilizar Trajouce para a instalação do TMB nos idos anos oitenta e,
já nessa altura, ficou acordado que o aterro sanitário a construir seria
instalado em Sintra. Tal nunca veio a acontecer.
Nos anos noventa, com o
encerramento compulsivo da lixeira de Cascais que continuou a ser o
destino dos rejeitados do TMB (Central Industrial de Tratamento de
Resíduos Sólidos), a Câmara de Cascais acabou por aceitar a instalação de
um novo aterro também em Trajouce que funcionaria até ao seu encerramento
em 2003.
É nesta nova encruzilhada, aterro
em vias de encerramento, uma unidade de TMB com dez anos e capacidade para
tratar apenas 50% dos Resíduos recebidos no Sistema, que se coloca a
questão de novos investimentos em unidades de tratamento de resíduos.
Convém relembrar que, certamente
por questões políticas, as Câmaras de Cascais (José Luís Judas) e de
Sintra (Drª Edite Estrela) em conluio, empurraram para depois das eleições
de 2001 a decisão de construir o novo aterro em Sintra
(localização prevista na zona de Negrais).
Esta decisão viria a ser de uma
importância profundamente nefasta para os interesses dos 4 municípios e
especialmente dos seus munícipes, tendo representado seguramente um custo
acrescido de mais de 35 milhões de euros entre 2002 e 2009 com o
transporte de resíduos para outros destinos para tratamento e deposição
final.
Depois de muitas vicissitudes,
com a recusa da nova Câmara de Sintra, saída das eleições de 2001, em
aceitar a instalação de Aterro Sanitário em Negrais, a Câmara Municipal de
Mafra assume a disponibilidade de instalar um conjunto de infraestruturas
de tratamento de resíduos em Mafra, mais propriamente em Abrunheira,
mediante um conjunto de contrapartidas que acabaram por ser aceites pelos
restantes municípios.
Antes da aprovação do PERECMOS,
houve ainda um Plano Estratégico elaborado pela Hidroprojecto, que
pressupunha a construção de um Aterro, uma unidade de Digestão Anaeróbia e
uma Unidade de Incineração de Resíduos. O investimento era tão elevado e a
eventual comparticipação comunitária tão baixa, que a AMTRES deixa cair
este Plano e estuda novas soluções.
É nesta altura que, que é enviada
uma comunicação ao então Presidente do Conselho Diretivo da AMTRES,
lamentando o facto de aparentemente, as duas entidades, AMTRES e
Tratolixo, estarem algo de “costas voltadas”.
Transcreve-se a seguir a
comunicação então enviada:
Exmº Senhor
Presidente do C.A. da AMTRES
Dr. José Eduardo Costa
13 de Janeiro de 2003
ASSUNTO: TRATOLIXO
Tomo a liberdade de fazer
este contacto, a título pessoal, que se prende com um conjunto de
reflexões acerca do presente e o futuro da Tratolixo e que, quanto a mim,
importa clarificar para, no desempenho das funções que exerço na Administração
da Tratolixo em representação da AMTRES, possa atuar de acordo com
aquelas que são as V. expectativas.
Poderei estar errado nesta
minha interpretação mas sente-se um certo divórcio entre a AMTRES e a
Tratolixo em relação à definição do futuro do sistema de tratamento de
resíduos das quatro Câmaras envolvidas nessa Associação.
Sem querer obviamente
questionar o papel cimeiro que compete à AMTRES na gestão desta
problemática, parece-me contudo que, existindo a Tratolixo com
participação maioritária da AMTRES, com um contrato de concessão válido
ainda por mais alguns anos para a gestão da CITRS, seria natural e
benéfico um real envolvimento da Tratolixo na participação das soluções a
encontrar para a ampliação da capacidade de tratamento de resíduos.
É certo que os privados
detentores de parte do capital social da Tratolixo mantiveram ao longo dos
tempos uma atitude passiva em relação à empresa, nomeadamente no que
respeita aos investimentos necessários e à definição de estratégias de desenvolvimento.
No entanto, não é menos
verdade que ao longo desse mesmo período o sócio maioritário AMTRES nunca
assumiu uma atitude pressionante junto dos privados, avançando com a
definição de estratégias de desenvolvimento e exigindo uma participação diferente
dos privados, nomeadamente em termos financeiros.
Presentemente, um dos
privados, a HLC, dada a sua débil situação financeira, começa já a criar
problemas ao normal funcionamento da Tratolixo. Os recentes
desafios em que a Tratolixo se envolveu, ditaram a necessidade
de esta reforçar a sua capacidade de endividamento na Banca e, a presença
da HLC na estrutura acionista da Tratolixo, motivou já a indisponibilidade
de pelo menos duas instituições bancárias reforçarem o financiamento a
esta empresa.
Ora, talvez seja esta uma
boa oportunidade de a AMTRES negociar o afastamento da HLC da estrutura acionista
da Tratolixo até invocando precisamente esta situação.
É fácil perceber a situação
complicada em que a Tratolixo ficará se outras instituições
bancárias seguirem a mesma orientação que a CGD e o BPI já tomaram!
Quanto à Kock Portugal,
importará perceber se, perante uma situação de novos investimentos a
realizar, estão ou não disponíveis para acompanharem os outros acionistas
com meios financeiros. Tanto quanto me é dado saber nunca tomaram qualquer
iniciativa ou colocaram sobre a mesa uma proposta concreta nesse sentido.
Mas é pertinente perguntar: não deveria ser a AMTRES, enquanto detentora
da maioria do capital da empresa, a forçar por parte dos outros acionistas
uma definição perante propostas de ação concretas?
Penso poder concluir que a
resolução do problema existente de atitude por parte dos acionistas
privados da Tratolixo passa muito pela própria atitude da AMTRES.
O que acabo de afirmar não
pretende fazer a defesa dos privados no universo Tratolixo mas, estou
convicto que uma parte das razões do aparente divórcio da AMTRES com a
Tratolixo em muito se deve a esta questão.
Tomei conhecimento informal
de que a AMTRES se prepara para abrir um concurso internacional
para, em regime de Project Finance, encontrar o(s) parceiro(s) para a
execução dos novos investimentos para a ampliação da capacidade de tratamento
de resíduos.
Perante este facto
colocam-se-me um conjunto de questões para as quais não consigo, sozinho,
obter resposta.
- Sendo um concurso
público, pode a Tratolixo concorrer, encontrando as necessárias parcerias
que viabilizem, tecnológica e financeiramente, as condições do concurso?
- Se não, qual o futuro
papel da Tratolixo no sistema de Tratamento de Resíduos no âmbito da
AMTRES?
- Na afirmativa, e sendo a
Tratolixo uma empresa com capitais maioritariamente públicos (AMTRES), não
seria preferível “queimar” os prazos alargados que um concurso público
exige, bem como um infindável conjunto de procedimentos administrativos, e
encarregar desde já a Tratolixo para desenvolver contactos com diversas
empresas e entidades financeiras para estudar as melhores soluções
tecnológicas e financeiras para o desenvolvimento dos investimentos?
- Poder-se-á colocar a
questão da transparência obtida através do concurso versus encarregar a
Tratolixo desta tarefa. Mas, tendo a AMTRES a maioria do capital da
Tratolixo não está, por essa via, assegurada a transparência de todo o
processo? Numa situação de eventual quebra de confiança em um ou vários
dos administradores da Tratolixo nomeados pela AMTRES pode esta, em
qualquer momento, proceder à destituição desse(s) administrador(es)!
A eventualidade de se
caminhar por esta via, seria, estou convicto, um ótimo momento para o
aumento de capital social da Tratolixo e a redefinição da sua composição acionista.
A questão inicialmente abordada da passividade dos acionistas privados
teria um momento de ouro para uma clarificação do seu real empenho na
viabilidade desta Empresa!
Uma solução “liderada” pela
Tratolixo teria, em termos negociais, alguns benefícios.
Do meu ponto de vista
interessará à AMTRES investir numa solução em que esteja garantido que
controlará sempre a gestão do sistema, a sua fiabilidade e
operacionalidade e, não menos importante, o preço a pagar pelas Câmaras.
Uma solução promovida pela
Tratolixo iria ao encontro destas premissas, (o controle da Tratolixo é
assegurado pela AMTRES) e, no âmbito da negociação com os potenciais
grupos interessados em investir na ampliação do sistema de tratamento de
resíduos da AMTRES, o facto de a Tratolixo personificar a garantia do
fluxo de resíduos para o sistema pode ter um peso negocial importante na
composição acionista futura, garantindo-se que o capital da AMTRES seja
maioritário.
Também o fator tempo não é
despiciendo.
A ser tomada a decisão de
encarregar a Tratolixo de promover este processo, há poupanças
assinaláveis de tempo que é, neste momento, um fator chave para a
manutenção do controle do sistema. Não sendo segredo que a abertura de um
concurso queimará um ano no mínimo, até que estejam reunidas as condições
para o licenciamento da nova unidade e o início da sua construção, e
sabendo-se os custos ambientais e financeiros que representam cada dia que
passa sem dispor de uma capacidade adequada no sistema para o tratamento
das quantidades de RSU’s produzidas pelas 4 Câmaras, fácil será perceber
que se for possível ter em funcionamento a nova unidade dentro de 3 anos é
sempre preferível do que em 4 ou 5 anos!
Há um último aspeto que me
parece também importante. Numa solução de concurso, as propostas a receber
pela AMTRES serão propostas fechadas, o que implicará ainda mais tempo com
as previsíveis alterações que se pretenderão introduzir, enquanto que numa
solução com negociação pela Tratolixo, o projeto, quer em termos
tecnológicos, quer em termos funcionais quer ainda em termos financeiros,
poderá nascer desde logo segundo a vontade e concordância da AMTRES
conforme as instruções que em cada momento for dando aos administradores
que representam o seu capital na Tratolixo.
Tive já por diversas vezes
a oportunidade de referir, nas várias reuniões mantidas com a
Administração da AMTRES, a minha profunda preocupação com a urgência de
dispormos em curto espaço de tempo de uma capacidade instalada de
tratamento para a quantidade de resíduos produzidos pelas 4 Câmaras
Municipais integrantes da AMTRES.
Parece-me, portanto, que a
urgência em dispor de uma capacidade de tratamento de resíduos adequada às
necessidades, aconselharia a optar-se pela solução que, não
colocando nunca em causa o rigor e a transparência exigível, fosse a de
mais rápida execução e entrada em funcionamento.
Por último, e que de certa
forma se prende com o fundamento destas preocupações, as orientações
estratégicas para o desenvolvimento da Tratolixo.
Como venho defendendo nas
reuniões mantidas com a Administração da AMTRES, é fundamental que a
Tratolixo enverede por uma via de diversificação de negócios para, por um
lado, ficar menos dependente dos fluxos financeiros das Câmaras e dos
consequentes problemas de tesouraria que ciclicamente atravessamos e, pelo
outro, resultante do contrato de concessão existente, aumentando os
proveitos da Tratolixo por outras vias, fazer descer as comparticipações
devidas pelas Câmaras.
Presentemente, a composição
do Conselho de Administração da Tratolixo, no que respeita aos
Administradores indicados pela AMTRES, parece reunir condições de
dinamismo e empenho que importaria aproveitar ao máximo.
Pela primeira vez, temos
dois administradores que acompanham diariamente a atividade da empresa, eu
próprio e o Eng. Leite Pereira, e um terceiro, o Dr. Realista,
que, embora com menos disponibilidade, é uma pessoa de elevada dinâmica e objetividade
e tem desempenhado um papel crucial na resolução de alguns problemas da
maior importância para esta empresa.
Daí que, no âmbito do seu
funcionamento se tenha desenvolvido uma estratégia para o estudo de
diversas áreas possíveis de novos negócios, o que está já a decorrer, e
nos permitirá, com alguma brevidade, dispor de um conjunto de propostas para
apresentar ao acionista maioritário da Tratolixo.
Ora, sentindo-se uma certa
incerteza sobre o papel que a AMTRES reserva à Tratolixo no futuro da
gestão do sistema de resíduos, coloca-se-me a dúvida se não estaremos a
desenvolver trabalho que de certa forma contraria os objetivos traçados
pela AMTRES para esta empresa.
Por tudo isto, gostaria de
solicitar que, em data considerada oportuna, fosse promovida uma reunião
com a participação do Conselho de Administração da AMTRES e os
Administradores da Tratolixo em sua representação, de forma a obter-se uma
definição sobre estas questões.
Gostaria de que o constante
neste documento fosse entendido como o contributo de alguém que, dentro da
maior lealdade, vive todos estes problemas e a empresa para a qual foi
nomeado Administrador em representação da AMTRES, com o espírito do
serviço público e a defesa dos interesses das quatro Câmaras envolvidas.
Com os melhores
cumprimentos.
Rui Frade Ribeiro
C/ Cópia para:
Exmº Senhor
Arq. Carlos Reis
Exmº Senhor Dr. Gil Ricardo
A AMTRES lança então o desafio à
Tratolixo, em finais de Janeiro de 2003, para a elaboração de um Plano
Estratégico de Resíduos para o Sistema de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra
que, não abdicando das melhores práticas e de soluções ambientalmente corretas
e defensáveis, tivesse no entanto um investimento previsto que fosse
suportável pelos quatro municípios envolvidos.
Em um mês, o então Diretor Geral
da Tratolixo, Eng. Álvaro Costa, com a minha colaboração, procede à
elaboração do PERECMOS.
Mais uma vez veio à superfície a
crónica incapacidade de os quatro municípios se entenderem.
Embora o PERECMOS tenha sido
entregue nos primeiros dias de março de 2003, os quatro municípios só em setembro
do mesmo ano conseguiriam encontrar uma base de entendimento e aprovar em
Assembleia Intermunicipal o Plano Estratégico.
Para uma análise rigorosa convirá
referir que, dos quatro municípios, houve um que nunca demonstrou grande
confiança na estratégia preconizada – o Município de Sintra.
Vencido, mas não convencido, o
Presidente da Câmara de Sintra, Dr. Fernando Seara, usou de todos os
subterfúgios para impedir que o PERECMOS pudesse ser um sucesso e a
resposta cabal aos problemas que os municípios tinham sentido na procura
de soluções para o tratamento dos Resíduos Sólidos Urbanos de Cascais,
Mafra, Oeiras e Sintra.
Defensor de uma adesão à Valorsul
com a correspondente incineração dos resíduos, O Dr. Fernando Seara não
conseguiu, naquela altura, demover os restantes três Presidentes de
Câmara, Dr. António d’Orey Capucho, de Cascais, Eng. Ministro dos Santos,
de Mafra e Drª Teresa Zambujo, de Oeiras, no seu apoio ao Plano
Estratégico elaborado pela Tratolixo.
Esta questão chegou mesmo a
fundamentar um pedido dos outros três municípios para que se estudasse a
implementação desta solução apenas com 3 municípios assumindo-se a saída
de Sintra desta solução.
O estudo foi realizado, provando
que a solução para Cascais, Mafra e Oeiras seria muito menos exigente em
termos financeiros, mas Sintra acabou por assumir a aprovação do PERECMOS
e, por essa via, não se auto excluir do Sistema AMTRES.
Contudo, um desafio como o que
era preconizado no PERECMOS, vinha contrariar claramente as soluções
defendidas pela EGF.
A EGF, empresa do Grupo Águas de
Portugal, que controlava cerca de 50% dos Sistemas de Resíduos em
Portugal, defendia um reforço da incineração de resíduos, quer pelo
aumento da capacidade da unidade da Valorsul (a famosa quarta linha) quer
pela implementação de uma nova unidade no sistema ERSUC.
Ora a defesa de uma opção reciclar como
primeira prioridade, como era defendida no PERECMOS, representou um
contratempo para a estratégia dos sistemas sob a égide do Estado, através
da EGF, que apostavam claramente na Incineração.
O Plano Estratégico desenvolvido
pela Tratolixo foi entusiasticamente recebido pelos sectores
ambientalistas, usando-o, muitas vezes, como arma de arremesso a alguns
dos sistemas geridos pela EGF.
Um dos exemplos do que acabo de
referir foi a discussão pública no sistema ERSUC, em que a Tratolixo
acabou por ser convidada a apresentar o seu Plano Estratégico em sessão
pública realizada em Coimbra, como forma de divulgar uma posição alternativa
àquela que era defendida pela Administração da ERSUC.
Para quem conheça minimamente a
realidade autárquica sabe o quanto é difícil combater a natural inércia
existente e introduzir alterações nos status quo municipais.
Por isso, entre a aprovação da
estratégia definida no PERECMOS, a passagem da responsabilidade da gestão
do sistema para a Tratolixo e a implementação das alterações ao nível das
recolhas e instalação de equipamentos de deposição nos quatro municípios
houve ainda muita tinta gasta.
Sintra definiu desde logo que a
recolha continuaria a ser executada pela HPEM e pela SUMA e, naturalmente,
manteve ao longo destes anos uma estranha inércia, de que resultou o menor
crescimento em recolhas seletivas dos quatro municípios.
Só alterou esta atitude em cima
das eleições de 2009 dando finalmente luz verde para um significativo
reforço de equipamentos de deposição na via pública no concelho de Sintra
que começarão a dar resultados em 2010.
São só 7 anos de atraso…
Os restantes municípios não
colocaram qualquer entrave à aquisição de equipamento de deposição, com
vista à obtenção da meta de 250 habitantes por conjunto de ecopontos.
No entanto as questões da
recolha, nomeadamente o reforço necessário de meios disponíveis para
garantir uma recolha eficiente, tiveram ainda alguns episódios que valem a
pena ser recordados.
Em Cascais, existia um forte
desentendimento com a SUMA, fruto de uma maior eficácia de fiscalização
pela CAF - Comissão de Acompanhamento e Fiscalização das Empresas
Concessionárias de Cascais – porque esta Comissão começou a ter
consciência da dimensão da ruína que representava o contrato que a CMC
tinha estabelecido com a SUMA em 1996 no mandato de José Luís Judas.
Com o reforço de colocação de
equipamentos de deposição no município de Cascais em 2004, a SUMA viu uma
oportunidade de aumentar o valor a faturar à CMC e, por essa via, ampliar
a sua posição já privilegiada.
Surge desta forma a hipótese de
concentrar os novos equipamentos em duas freguesias, Alcabideche e S.
Domingos de Rana, retirar estas duas freguesias da concessão da SUMA no
que respeita à gestão e recolha de ecopontos, e entregar a recolha de
recicláveis dos ecopontos em Alcabideche e S. Domingos de Rana à COLEU
S.A., empresa participada pela Tratolixo e pela AMTRES, e que estava a ser
vocacionada para executar transporte de resíduos para aterros e assegurar
recolhas de resíduos nos quatro municípios.
A alternativa foi montada em
menos de um mês!
Este primeiro exemplo, que acabou
por resultar da situação gerada pela SUMA e a sobranceria colocada no seu
relacionamento com a Câmara Municipal de Cascais, veio a ser a abertura da
janela de oportunidade para a afirmação da COLEU enquanto empresa de
recolhas no sistema AMTRES.
Rapidamente os municípios de
Oeiras e de Mafra se socorreram dos serviços da COLEU para reforçar as
equipas de recolha de recicláveis caminhando posteriormente para a entrega
integral desse serviço, como acabou por acontecer com Cascais e Oeiras.
A existência de uma estreita
ligação Tratolixo – COLEU, que nesta fase tinham em comum alguns
administradores, permitiu agilizar e monitorizar os processos, garantindo
um aumento muito significativo na quantidade e principalmente na qualidade
do serviço prestado, de que resultaram os aumentos extraordinários de
resíduos recicláveis, com os consequentes incrementos nas receitas
provenientes da entrega destes materiais à SPV.
A COLEU, empresa que se perfilava
como prestadora de serviços de recolha de resíduos com baixo preço, tinha
uma característica que cedo provocou apreensão nos diversos operadores
privados: tratava-se de uma Sociedade Anónima, cujo capital social era
detido integralmente por entidades públicas (Tratolixo e AMTRES).
A COLEU demonstrou que era
possível associar o baixo preço a uma gestão profissional, de carácter
privado.
Para além disso, a prazo poderia
significar a ocupação de um mercado que envolve uma população de cerca de
850.000 habitantes, poderia ser o rastilho para soluções semelhantes em
outros locais do país e aquilo que era um ainda promissor mercado para a
maioria das empresas desta área (com exceção para a SUMA que assumia já
uma importante quota de mercado mas que arriscava perder o contrato de
Cascais e a médio prazo o contrato de Sintra) poderia ser o fim de um
bonito sonho.
As empresas de recolha tudo
fizeram para contrariar esta situação e com mais ou menos responsabilidade
no desfecho, respiraram de alívio em 2007, quando a Tratolixo viu alterada
a sua estratégia e o encerramento da COLEU ditado pelos quatro municípios
do sistema da AMTRES.
Com as eleições autárquicas de
2005, dão-se dois acontecimentos que seriam vitais para a alteração da
estratégia definida para a Tratolixo no PERECMOS – a vitória do dr.
Isaltino de Morais em Oeiras e a eleição do Dr. Carlos Carreiras nas listas
do Dr. António Capucho em Cascais.
O Dr. Isaltino de Morais tinha
“contas para ajustar” com algumas pessoas ligadas à gestão da Tratolixo e
da Coleu.
Um diferendo comigo, antigo, que
remonta à sua passagem pela distrital do PSD e minha pela concelhia do PSD
de Cascais, com a indigitação do candidato autárquico a Cascais em 1993 e
que motivou a minha demissão da concelhia e a imposição pela Distrital do
nome de Nunes de Carvalho como candidato à Câmara de Cascais.
Também com o Dr. José Eduardo
Costa que, tendo sido Vereador muito próximo do Dr. Isaltino de Morais,
com a sua saída da Câmara de Oeiras para Ministro, naturalmente manteve
uma atitude solidária e fiel à Presidente Drª Teresa Zambujo, facto
considerado pelo novel Presidente de Oeiras como uma traição.
A estratégia do Dr. Isaltino de
Morais passou por questionar a valia técnica do modelo preconizado no
PERECMOS e, em simultâneo, insinuar falta de qualidade na gestão da
Tratolixo, nomeadamente na forma como o Project Finance tinha
sido negociado.
O Conselho de Administração da
Tratolixo era então composto por 3 administradores (Rui Frade Ribeiro, que
presidia, Luís Realista e Marco Almeida) em que o único que estava a tempo
inteiro na Tratolixo era o Presidente.
O Dr. Isaltino começou então um
processo de diabolização do Conselho de Administração da Tratolixo, que
não tinha nenhum representante de Oeiras, invocando a necessidade de
profissionalizar o Conselho de Administração, devendo, no seu entender, o
Conselho passar a ser composto por 5 administradores profissionais, sendo
um indicado por cada um dos 4 municípios e o quinto, por consenso entre
todos os Presidentes de Câmara e que seria o Presidente.
Outra questão fundamental passava
pela discussão do princípio da implementação da recolha seletiva dos
Resíduos Orgânicos que, no entendimento do Dr. Isaltino de Morais, era
impossível de atingir e com um preço incomportável no que respeita à sua
recolha seletiva.
Já as questões colocadas pelo Dr.
Carlos Carreiras, Vice-presidente da Câmara Municipal de Cascais com o
Pelouro do Ambiente tinham outros contornos, alguns de mais difícil
compreensão.
Carlos Carreiras sempre
desconfiou da notoriedade e a importância que a Tratolixo vinha mantendo
em matéria de Resíduos, defendendo a sua retirada de duas áreas: a recolha
de resíduos e a sensibilização.
Vale a pena colocarmos um pequeno
parêntesis a seguir, para contar uma história paralela, a Criação da EMAC,
mas que se tornou determinante para os passos subsequentes que a Câmara de
Cascais veio a tomar em matérias relacionadas com a Tratolixo.
Perante estas duas correntes de
opinião criadas, que confluíam num objetivo “comum” de introduzir
alterações na composição do Conselho de Administração da Tratolixo e
reformular a estratégia definida no PERECMOS, nomeadamente diminuindo as
metas previstas para as recolhas seletivas de Resíduos Orgânicos, passar
as recolhas de seletivos para os municípios bem como a sensibilização,
aparece um terceiro contributo que, de minoritário no mandato anterior,
aproveitou agora os novos “ventos de mudança” – estou a referir-me,
naturalmente, ao Dr. Fernando Seara, Presidente da CMS.
Outro aspeto determinante, e que
ao longo dos tempos de existência da Tratolixo sempre foi um grave
problema para esta empresa, foi o crónico atraso de pagamento dos quatro
municípios pelos serviços prestados pela Tratolixo no tratamento dos
resíduos sólidos urbanos produzidos por Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra.
A falta de cumprimento atempado
dos pagamentos devidos pelas quatro câmaras obrigou a Tratolixo a contrair
endividamento para financiamento de tesouraria ao longo dos tempos.
Já na fase de implementação do
PERECMOS e no decurso do Project Finance, foi necessário
desviar meios previstos para o investimento para financiar despesas
correntes.
Na prática, a Tratolixo foi
veículo para contornar a capacidade de endividamento das Câmaras para a
realização dos investimentos necessários em instalações complementares de
tratamento de resíduos com a negociação do Project Finance mas,
ao mesmo tempo, foi obrigada a usar parte desses recursos financeiros para
financiar os atrasos de pagamentos dos municípios relativos ao tratamento
dos resíduos entregues.
2.1. A CRIAÇÃO DA EMAC
Em pleno ano eleitoral de 2005,
estava a terminar o contrato com a SUMA em Cascais e tinha-se iniciado um
processo de discussão da renovação ou não desse contrato e as suas
implicações económicas, ambientais e políticas.
Começou então a desenhar-se a
possibilidade de renegociar com a SUMA uma renovação contratual ou mesmo a
constituição de uma empresa de capitais mistos com a participação da CMC e
da SUMA.
Porque conhecia alguns contornos
duvidosos do processo de adjudicação deste concurso à empresa SUMA mas
principalmente porque as condições comerciais praticadas pela SUMA eram
manifestamente ruinosas para a CMC, elaborei um primeiro estudo de
implementação de uma empresa municipal para a área da limpeza urbana e
recolha de resíduos, chegando à conclusão de que tal solução poderia
permitir poupar aos cofres da Câmara um valor entre 3,5 e 5 milhões de
euros por ano.
Ao apresentar este estudo ao Dr.
António Capucho, defendi que era possível implementar esta solução, que
era possível melhorar significativamente a qualidade dos serviços
prestados às populações e, acima de tudo, poupar muito dinheiro à CMC.
Foi então criada uma comissão de
trabalho para estudar a implementação de uma solução para a limpeza urbana
e recolha de resíduos, composta pelo Dr. Carlos Carreiras, presidente da
concelhia do PSD e candidato a Vice-presidente nas eleições de 2005, o Dr.
João Dias Coelho, presidente da CAF, e eu próprio, na altura a presidir à
Tratolixo e à Coleu.
A decisão acabou por recair na
formalização da constituição da empresa EMAC e foi-me pedido que
acumulasse a Presidência desta empresa na fase da sua implementação e
naquela que se esperava difícil fase de transição dos serviços da SUMA para
a EMAC, a par das responsabilidades
que já detinha na Tratolixo e na
Coleu.
Com muito trabalho dos técnicos
que foram chamados a dar o pontapé de saída na empresa, a par dos meus
colegas de Administração, Dr. Rui Libório, atual Presidente da EMAC, e
Arq. Carlos Reis, a implementação da empresa resultou num enorme sucesso,
quer na qualidade do serviço prestado quer na poupança que representou
para o município – 5 milhões de euros logo no ano de arranque em 2006.
Contudo, o sucesso da EMAC cedo
se revelou “inimigo” da Tratolixo e da estratégia preconizada no PERECMOS.
Sendo a EMAC a empresa de
Ambiente da Câmara de Cascais, seria mais fácil recolher os benefícios
políticos do trabalho realizado na área ambiental se o mesmo estivesse sob
a égide da EMAC.
Desenharam-se então duas decisões
que viriam a ditar a curto prazo as alterações efetuadas no PERECMOS – a
passagem das recolhas seletivas para a EMAC (que deixou a COLEU com um
deficit estrutural o que veio a resultar no seu encerramento) e a intenção
de passar para a EMAC todas as ações de sensibilização a realizar em
Cascais.
Os argumentos então aduzidos pelo
Dr. Carlos Carreiras – A Tratolixo é para tratar o lixo, as recolhas e a
sensibilização devem ser responsabilidades de cada um dos municípios –
deram o mote para a realização das alterações no PERECMOS que, em minha
opinião significaram um retrocesso na estratégia de resíduos deste sistema
e ditaram o fracasso da estratégia inicial.
Esta decisão forçada por Carlos
Carreiras de passagem das recolhas e da sensibilização para a esfera de
cada uma das Câmaras que compõem este sistema de resíduos, com muito de
politiquice e nada de gestão ou de interesse público, foi a principal
responsável pelo insucesso do PERECMOS.
3. O PERECMOS
3.1. A génese do Plano
Estratégico de Resíduos de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra
Com o desafio colocado pelo Conselho Diretivo da AMTRES nos últimos dias de
Janeiro de 2003, para que a Tratolixo elaborasse um novo Plano Estratégico que
reduzisse o valor do investimento previsto no plano elaborado pela
Hidroprojecto, o Diretor Geral da Tratolixo, Eng. Álvaro Costa, com a minha
colaboração, iniciou uma abordagem a esta questão promovendo algumas alterações
estratégicas na organização proposta para o sistema e nas soluções de
tratamento, preconizando a potenciação das recolhas seletivas, quer da fileira
embalagem quer de RUB, e a sua valorização.
No desenho realizado para o
sistema, avançava-se com a proposta de construção de uma Unidade de Digestão
Anaeróbia, que trataria 75.000 ton/ano de RUB recolhidos seletivamente,
mantinha-se a Unidade de Compostagem de Trajouce (TMB) com uma capacidade
nominal de 150.000 ton/ano de RSU indiferenciado e o envio para a incineração
na Valorsul de 50.000 ton/ano.
No desenho inicial (que viria
depois a ser revisto em baixa), assumia-se que entre os materiais recolhidos em
ecopontos, em recolha porta-a-porta (a exemplo do que a Câmara de Oeiras fazia
com sucesso) e a recolha em circuitos dedicados a produtores comerciais, seria
possível recuperar 75% do material reciclável presente no RSU.
As grandes linhas deste Plano
passavam pela clara aposta nas recolhas seletivas e, por esta via, diminuir as
quantidades de rejeitados a enviar para aterro e por outro lado aumentar as
receitas com as contrapartidas definidas pela SPV.
Por esta mesma razão, entendeu-se
que o Plano Estratégico deveria ainda tratar aspetos como a sensibilização,
peça fundamental em qualquer estratégia de mudança de hábitos nas populações, o
método de tarifação dos resíduos, dada a realidade vivida nos quatro municípios
de não cobertura dos custos do sistema de resíduos com as tarifas de Resíduos
Sólidos praticadas, e ainda o reforço de equipamentos destinados à deposição de
resíduos da fileira embalagens e a construção de Ecocentros.
Para testar a viabilidade de
propostas tão arrojadas, foram ouvidos alguns especialistas e pessoas ligadas à
problemática dos resíduos que se pronunciaram pela exequibilidade deste plano
e, de forma até entusiasmada, anteviram neste plano uma pedrada no charco de
tudo quanto eram as teses dominantes sobre este tema.
O Eng. Carlos Pimenta (ex Secretário de Estado do Ambiente), o Eng. Ascenso
Pires (Diretor Geral do Ambiente à altura) ou o Eng. Rui Bercmeyer (dirigente
da Quercus) foram alguns dos técnicos a quem foi solicitada opinião sobre este
plano que se pronunciaram pela justeza das propostas e, com algum entusiasmo,
nos incentivaram a avançar com ele.
O PERECMOS representava uma clara
cisão com a opinião dominante nos sistemas sob a égide da EGF.
Às teses de que a melhor solução
era incinerar os RSU, o PERECMOS assumia que a prioridade deveria passar pela
recuperação e pela reciclagem devendo apenas a fração resto ser valorizada
energeticamente;
Às teses de que era impossível
melhorar as respostas das populações à separação dos resíduos e consequente
recolha seletiva, o PERECMOS respondia com uma estratégia de melhorar a
resposta dos sistemas às necessidades das populações para a sua missão de
separar os resíduos e com uma fortíssima campanha de sensibilização;
Às teses de que as recolhas seletivas eram muito mais caras e que eram
incomportáveis os custos de recolha, numa estratégia de potenciar as recolhas seletivas
o PERECMOS assumia claramente que a solução era a da promoção das recolhas seletivas
porque, sendo mais caro a recolha, era mais barato o tratamento e mais
vantajoso, pela via da venda dos recicláveis.
3.2. A implementação do PERECMOS
O Plano Estratégico de Resíduos
de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra – PERECMOS – tinha uma premissa principal
que passava pela prioridade à Reciclagem e Reutilização do máximo de Resíduos.
Em 2003, estávamos numa época
onde ainda se discutia de forma muito acesa se a melhor via seria o
aproveitamento energético dos resíduos (tese defendida pelas mais importantes
figuras da EGF do grupo Águas de Portugal e naturalmente com um peso significativo
junto do Ministério do Ambiente) ou, ao invés, a promoção da reutilização e
reciclagem dos resíduos (tese defendida pelos responsáveis de alguns grupos
ambientalistas, como o caso da Quercus, e por outras entidades ligadas ao meio,
nomeadamente a Tratolixo).
O argumento principal utilizado
pelos defensores da tese da incineração de resíduos era o custo elevado das
recolhas seletivas e a impossibilidade de ultrapassar determinados limites do
índice de seleção de resíduos na fonte. Ora o PERECMOS provava a
sustentabilidade de um sistema baseado no princípio da reciclagem e mais,
provava que não era mais caro do que as outras soluções.
In extremis, o então Ministro do Ambiente Dr. Amílcar Teias, para tomar uma
decisão coerente com o interesse dos municípios envolvidos no sistema da AMTRES
e o interesse nacional, solicitou que fosse realizado um estudo comparativo com
a solução preconizada pelo PERECMOS e dois cenários alternativos, em que um
deles passava pela instalação da quarta linha da Valorsul.
Esse estudo comparativo, realizado pela Hidroprojecto, concluiu que a solução
preconizada no PERECMOS era a economicamente mais vantajosa.
E foi o PERECMOS que foi aprovado
pelo Ministro do Ambiente em 2003.
O Plano Estratégico tinha um
conjunto de investimentos previstos em infraestruturas de tratamento de
resíduos mas ia mais longe, definindo algumas metodologias para a criação de
novos fluxos de recolhas seletivas (Resíduos Orgânicos Biodegradáveis – RUB) ou
para a otimização e maximização dos resíduos da fileira embalagens, equacionava
vertentes fundamentais para o sucesso do Plano como a Sensibilização dos
Munícipes dos quatro concelhos ou o desenvolvimento de estudos que
viabilizassem uma aproximação dos custos para os munícipes da prestação de
serviços de recolha e tratamento de RSU com a quantidade e o tipo de RSU
produzidos por cada munícipe/agregado familiar.
Sou suspeito ao considerar a
elaboração deste Plano como um marco memorável e que, não tivesse sido
desvirtuado em 2007, seria um case study em matéria de soluções de tratamento
com sucesso.
Teve necessidade de algumas correções
(a Revisão do Plano de 2006) nomeadamente ao nível da previsão de recicláveis
recolhidos seletivamente que era muito ambiciosa na versão inicial, mas, no
essencial, este Plano tinha todos os requisitos para funcionar e provar que é
sustentável uma solução baseada na Reutilização e na Reciclagem dos Resíduos.
Com a elaboração do Plano
surgiram um conjunto de decisões e de opções, também elas estratégicas, sobre o
modelo de organização do Sistema de Resíduos da AMTRES.
Foram tempos épicos, de grande
envolvimento, de muito entusiasmo e de prazer em fazer bem, fazendo diferente.
Há vários ditados populares que
espelham o estado de espírito vivido então. “O hábito faz o monge” ou “a
ocasião faz o ladrão” ou ainda “em Roma sê romano” são exemplos que se poderiam
aplicar.
Sem aterro próprio, com custos
brutais a expedir o remanescente dos resíduos do sistema e os rejeitados da TMB
de Trajouce, o engenho aguçou a análise de todas as hipóteses de reutilização
de resíduos que deixassem de ter o papel de exportáveis para aterro ou para
outros destinos finais – cada tonelada de resíduo que passava a valer dinheiro
e ao mesmo tempo deixava de custar 43 € para enviar para aterro era uma
vitória.
Deram-se passos de gigante.
Os monstros que eram
integralmente enviados para aterro passaram a ser escolhidos, separados por
fluxos e encaminhados para valorização.
Também os Resíduos de Jardins e Parques que eram antes encaminhados para o
aterro passaram a ser triturados e enviados para valorização energética.
O TMB começou a funcionar em dois turnos e todos os RSU indiferenciados eram
processados com o consequente aumento de recuperação de papel e cartão,
ferrosos e não ferrosos e a dada altura, a recuperação de PEBD e, naturalmente,
a diminuição de resíduos a enviar para destino final.
Um dos aspetos que começou a tomar forma foi o reaproveitamento de todo o PEBD
existente no RSU indiferenciado, criando em Trajouce uma unidade para a sua
valorização e transformação em matéria-prima utilizável na indústria
recicladora do plástico.
Algumas experiências realizadas
com a SIRPLASTE demonstraram que, se fosse possível dispor de uma unidade de
lavagem deste plástico junto ao TMB em Trajouce, seria perfeitamente exequível
o seu aproveitamento para transformar em matéria-prima para a indústria.
Foi assim que nasceu a ideia da
criação da Tratoplás, uma unidade de reciclagem do plástico sujo, proveniente
dos rejeitados do RSU indiferenciado após triagem no TMB.
Feito o estudo de viabilidade
económica, ficou provada a sua exequibilidade.
Mais tarde, já em 2006, a SPV
acabou por atribuir um valor de compensação para este tipo de material o que
tornou este projeto ainda mais atrativo, pois permitiria juntar uma mais-valia
importante à atividade da Tratolixo.
Quando sabemos que o plástico
contido no RSU ronda os 11% significa que estamos a falar de um potencial de
cerca de 37 mil toneladas/ano recicladas e, em simultâneo, retiradas de destino
aterro.
O período 2003 / 2006, foi de
intenso trabalho na identificação das oportunidades de negócio no
reaproveitamento e reciclagem de Resíduos e assistiu-se na Tratolixo a um
grande crescimento das receitas provenientes desta atividade.
Num trabalho por mim apresentado
em Março de 2007, estes eram os valores que a empresa apresentava de evolução e
de correspondentes expectativas:
Há um aspeto que importa realçar:
o conjunto de novos quadros técnicos que foram integrados na empresa para dar
suporte a toda esta revolução, rapidamente se integraram com os mais antigos e
todos, sem exceção, evidenciavam um entusiasmo e uma dedicação a todos os
títulos louvável.
Se houve em alguns momentos
qualquer situação menos conseguida provocada pela inexperiência de toda esta
gente nova foi largamente compensada em vontade e entusiasmo desta equipa
fantástica.
Contudo, por mais competente que
fosse a equipa que liderava todo este processo na Tratolixo, existiam um
conjunto de importantes medidas que tinham que forçosamente contar com a
colaboração ativa de cada um dos quatro municípios e dos seus respetivos
serviços técnicos o que, a não acontecer, (como se veio a verificar em alguns
casos), dificultariam ou mesmo poderiam fazer perigar o sucesso do PERECMOS.
A própria aprovação do PERECMOS,
o seu arranque, foi penosamente demorada e uma clara demonstração de que, para
os municípios, parecia não se tratar de matéria urgente.
Questões como as recolhas seletivas,
a sensibilização, a instalação de ecocentros, a estabilização dos fluxos
financeiros das Câmaras, eram de uma importância extrema para o cumprimento do
previsto no PERECMOS.
Se parte destes aspetos começavam
a ser contrariados no dia-a-dia por alguns dos Municípios certamente que isso
iria implicar a prazo a asfixia do Projeto elaborado para o Sistema.
Por exemplo a questão das
Recolhas seletivas foi ao longo dos tempos alvo de sistemáticas intervenções da
Tratolixo sem que para tal tivesse alcançado o apoio e compreensão da
totalidade das Câmaras às teses defendidas.
Em Junho de 2004 foi feita mais
uma tentativa, de muitas, de chamar os municípios à razão relativamente às
questões das recolhas seletivas e a sua importância fundamental para a
implementação bem sucedida do PERECMOS.
Os municípios nunca se colocaram
de acordo relativamente aos valores a pagar à Tratolixo, a título
indemnizatório, do não cumprimento das metas dos recicláveis.
Chegados ao ano de 2006 continuavam a ser evidentes um conjunto de fatores
negativos para o sucesso do PERECMOS tal como tinha sido pensado e aprovado
pelos quatro municípios.
A Câmara de Sintra mantinha uma
grande inoperância relativamente à definição do tipo de reforço de
contentorização para os recicláveis, uma vez que insistia em optar, nalgumas
zonas do concelho, pela recolha lateral.
Pela ausência de reforço de
contentorização ia aumentando a distância entre os resíduos recicláveis efetivamente
recolhidos e o previsto no PERECMOS.
Cascais Oeiras e Mafra, fruto do
aumento de ecopontos na via pública com um rácio de 1 conjunto para 250
habitantes viam aumentar na mesma proporção a quantidade de recicláveis
recolhidos.
As medidas complementares para a
fileira embalagem em Cascais, Mafra e Sintra, a criação de circuitos
porta-a-porta e circuitos de produtores comerciais, estavam mais atrasadas.
Oeiras, precursor deste tipo de
medidas nos anos noventa, tendia a desinvestir neste tipo de circuitos mas,
ainda assim, era o único município que cumpria ou ultrapassava as metas
previstas para a fileira embalagem(papel/cartão, plástico/metal/ECAL e vidro).
Cascais, iniciava a criação de
circuitos de produtores comerciais mas numa fase ainda embrionária.
Mafra, mantinha uma certa inércia
para o arranque destes dois tipos de atividade.
Sintra mantinha em funcionamento
circuitos de produtores comerciais mas com pouca relevância nas quantidades de
recicláveis recolhidos.
Já no que respeita à criação de
circuitos de recolha de resíduos biodegradáveis os passos necessários
continuavam a não ser dados.
Exceção feita ao projeto piloto
de Ericeira/Ribamar, no concelho de Mafra, que se mantinha em funcionamento, os
projetos piloto implementados em Sintra (Agualva-Cacém) e Cascais (Mato
Cheirinhos) funcionaram no período experimental e foram encerrados.
Entretanto Cascais inicia a
recolha de RUB em produtores Comerciais em dois circuitos, o que, como
facilmente se compreenderá, fica muito aquém do potencial apresentado por
aquele concelho para este tipo de recolha.
Em Oeiras e Sintra as quantidades
de RUB recolhidas teimam em não sair do zero!
Este atraso era
extraordinariamente redutor para o modelo desenvolvido no PERECMOS e
especialmente penalizador a título financeiro uma vez que:
Não se atingiam as receitas previstas nas contrapartidas para os recicláveis da
fileira embalagem;
A não existência de recolha de
RUB mantinha um elevado nível de contaminantes no RSU indiferenciado e por essa
via uma diminuição da capacidade de recuperação de resíduos de embalagem e a
sua consequente valorização;
A diminuição dos recicláveis em
relação ao previsto no PERECMOS implicava o aumento na proporção inversa dos
resíduos a enviar para outros destinos, com o respetivo agravamento de custos.
O que atrás fica dito confirma,
até à exaustão, o quanto é impossível implementar um projeto deste tipo sem
garantir uma clara cadeia de autoridade e responsabilidade.
A Tratolixo manteve sempre o seu papel de gestora financeira dos investimentos
previstos no PERECMOS mas viu-lhe sempre negada a autoridade para intervir nas
recolhas nos quatro municípios.
E há uma verdade indesmentível:
É IMPOSSÍVEL GERIR UM SISTEMA DE
RESÍDUOS COM EFICIÊNCIA SEM CONTROLAR EM SIMULTÂNEO A RECOLHA, O TRATAMENTO E O
DESTINO FINAL!
Conscientes disso, a
Administração da Tratolixo ia lançando relatórios atrás de relatórios a alertar
para o óbvio – A necessidade de operar de forma conjunta e estratégica ao nível
das recolhas.
3.3. As recolhas seletivas
Em 17 de Janeiro de 2006 foi
enviado aos quatro municípios um relatório em que se analisava o custo /
benefício da implementação de Recolhas Seletivas se tivessem já em
funcionamento as soluções de tratamento a construir, nomeadamente a Digestão
Anaeróbia.
No estudo de custos e proveitos
considerava-se o benefício de não envio para Aterro dos Resíduos Urbanos
Biodegradáveis (RUB) muito embora tal só fosse considerável após a Digestão
Anaeróbia estar a funcionar.
Mas, a insistência com que
colocávamos a necessidade de começar desde já em promover a Recolha Seletiva de
RUB tinha outros horizontes.
É sabido que tratando-se de uma
nova fileira, há todo um período de habituação das pessoas, o conhecer das
novas regras.
Ora, estando em vias de se
iniciar a construção da Digestão Anaeróbia era fundamental que o período
experimental decorresse, entretanto, para que estivéssemos em velocidade de
cruzeiro quando a DA entrasse efetivamente em funcionamento.
Porque algumas vozes se
levantaram afirmando que era um custo suplementar antecipado, reformulou-se o
estudo de custos e benefícios válido para o momento imediato (sem benefício de
não envio dos RUB para aterro), confirmando-se que, ainda assim, havia ganhos
com a tomada de medidas conducentes a alterar as recolhas tal como previsto no
PERECMOS.
Em 5 de Abril de 2006 era
distribuído novo memorando aos quatro municípios apelando para uma rápida
tomada de decisão relativamente às recolhas seletivas que a seguir se
transcreve.
RECOLHAS SELETIVAS
CUSTOS E BENEFÍCIOS
Como foi já referido no
memorando elaborado em 17 de janeiro de 2006, o PERECMOS pretende ser um Plano
que aborda o futuro dos resíduos sólidos urbanos dos Municípios de Cascais,
Mafra, Oeiras e Sintra para os próximos vinte anos.
O Plano encerra como grande
objetivo estratégico a maximização da valorização dos RSU com a consequente
minimização da utilização de aterro como destino final.
No fundo, estão subjacentes
duas realidades que confluem neste mesmo objetivo:
- Encontrar soluções que
evitem a utilização de aterro como destino final, dada a dificuldade inerente à
área de grande ocupação urbana que se verifica nos quatro municípios que
constituem este sistema de resíduos e a dificuldade em encontrar localizações
para novos aterros;
- Promover a reciclagem e a
reutilização dos Resíduos em detrimento de soluções de eliminação (incineração
ou aterro).
Ora para tornar possíveis
estes objetivos não basta atuar ao nível das soluções de tratamento – é
fundamental intervir a montante no sistema de recolhas.
Aliás, é um erro crasso
pretender abordar a temática RSU sem estudar em conjunto todas as vertentes do
sistema (contentorização, sistema de recolha, soluções de triagem, tratamento e
destino final).
A avaliação do custo /
benefício do sistema tem óbvias implicações a montante (contentorização,
sistema de recolhas) e a jusante (soluções de triagem tratamento e confinamento
final). Só a avaliação conjunta dos custos permite identificar a solução globalmente
mais favorável.
O Modelo Financeiro
desenvolvido no Project Finance repercute nas receitas do Modelo o resultado
das vendas dos Resíduos recicláveis obtidos através das recolhas seletivas.
Como tem sido diversas
vezes afirmado, para que seja garantido o equilíbrio financeiro do Modelo, é
fundamental que sejam atingidas as metas de recicláveis definidos no PERECMOS
ou, não o sendo, competirá aos municípios, onde tal se verifique, que procedam
ao pagamento correspondente à receita não realizada.
É neste balanço que reside
a resposta para a pergunta:
Sendo a implementação de
recolhas seletivas geradora de um previsível aumento de custos nas recolhas, é
este aumento suportado pelos benefícios gerados com o maior índice de
reciclagem de resíduos?
Analisemos este assunto sob
as seguintes premissas:
1. Valor de referência para
a recolha do RSU indiferenciado 34,40 € (valor atualmente praticado no
Município de Cascais).
2. Valor de referência para
a valorização dos materiais recicláveis – 85,18 € (valor misto obtido na
Tratolixo – papel/cartão + plástico + metal embalagem)
3. Valor de referência para
a deposição em aterro – 35,00 €
4. Valor a praticar em 2006
pela Tratolixo / Coleu para recolhas porta-a-porta – 90,70 €/ton
5. Valor a praticar em 2006
pela Tratolixo / Coleu para recolhas de restos de comida – 35,00 €/ton
6. Valor a praticar em 2006
pela Tratolixo / Coleu para recolhas dos ecopontos – 6.080,00 €/equipa/mês
7. Não foram valorizados os
benefícios decorrentes da reciclagem dos restos de comida. Neste momento os
valores indicativos são de projeto tendo-se optado pela sua não utilização.
8. Não foram contabilizados
os benefícios decorrentes da diminuição de RSU indiferenciado pela criação das
recolhas seletivas dos restos de comida. A retirada da fração orgânica desta
fileira permitirá aumentar o rendimento da reciclagem de plástico e papel
cartão na triagem do tratamento mecânico biológico.
9. Não estão valorizados os
benefícios de redução dos resíduos a enviar para aterro resultantes do
previsível aumento de rendibilidade da recuperação de materiais na triagem do
Tratamento Mecânico Biológico.
No que respeita a Cascais
podemos afirmar o seguinte:
1 – O cumprimento das metas
de recicláveis implicará um incremento nos custos de recolha de 148.820,80
€/ano.
2 – Do cumprimento das
metas resultará um benefício correspondente à valorização de recicláveis num
montante de 711.987,85 €.
No que respeita a Mafra
podemos afirmar o seguinte:
1 – O cumprimento das metas
de recicláveis implicará um incremento nos custos de recolha de 14.536,90
€.
2 –Do cumprimento das metas
resultará um benefício correspondente à valorização de recicláveis num montante
de 168.266,00 €.
(*) – Não se consideraram
custos de recolha para os ecopontos porque as quantidades previstas permitem
ser cumpridas pelas equipas atualmente afetas a Mafra.
No que respeita a Oeiras
podemos afirmar o seguinte:
1 –O Município de Oeiras em
2005 já ultrapassou as metas previstas no PERECMOS relativas aos materiais
recicláveis de embalagem, fruto da implementação, há já vários anos, de
circuitos de recolha porta-a-porta;
2 – As variações de custos
para a recolha de restos de comida são de valor irrelevante.
No que respeita a Sintra
podemos afirmar o seguinte:
1 – O cumprimento das metas
de recicláveis implicará um incremento nos custos de recolha de 231.783,50
€.
2 – Do cumprimento das
metas resultará um benefício correspondente à valorização de recicláveis num
montante de 790.008,87 €.
Conclusão
Do que atrás fica exposto,
fácil é deduzir que o valor do incremento dos custos nas recolhas
(porta-a-porta e restos de comida), é significativamente menor do que aquele a
que os Municípios terão que incorrer se, pelo não cumprimento das metas,
tiverem que complementar as suas contribuições financeiras para a Tratolixo
para garantir o equilíbrio do Modelo Financeiro do Project Finance.
Outro aspeto relevante será
a necessidade de uma decisão urgente por parte dos quatro municípios relativa a
ser a Tratolixo / Coleu a implementar estas recolhas ou outra
qualquer entidade por forma a que se possa, em tempo, proceder à aquisição dos
equipamentos necessários para a sua realização.
Trajouce, 05 de Abril de
2006
Rui Frade Ribeiro
Esta inércia em adaptar a atividade
de recolha de resíduos dos municípios e a ausência de sinais de esforço para
cumprir o PERECMOS em todas as suas dimensões tinha fortes implicações na saúde
financeira deste Projeto.
3.4. O Financiamento do Sistema
A par da ausência de receitas dos
recicláveis que ficavam por recolher seletivamente e o esforço
suplementar em enviar os RSU's indiferenciados recolhidos a mais do
que o projetado para outros destinos, havia ainda um outro fator que ajudava a
distorcer ainda mais a execução financeira do PERECMOS – o sistemático atraso
dos municípios nos pagamentos da tarifa devida à Tratolixo pela gestão do
sistema de resíduos.
Este facto (historicamente sempre
presente na história da Tratolixo mesmo antes do PERECMOS!) deveria há muito
tempo ter sido alvo de profunda reflexão pelos decisores políticos das quatro
câmaras.
Consciente do problema e da forma
de o solucionar, voltámos “a carga” com mais um memorando em 27 de setembro de
2006, enviado aos quatro municípios do sistema.
Memorando
27 de setembro de 2006
Princípios orientadores
para a reformulação do financiamento do sistema de resíduos de Cascais, Mafra,
Oeiras e Sintra Implementação do princípio do utilizador/pagador nos Resíduos
Sólidos Urbanos.
1 – Enquadramento
Assiste-se neste momento a
uma situação difícil nos quatro municípios (Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra) no
que respeita aos recursos financeiros existentes face às crescentes
responsabilidades e exigência dos munícipes.
Por outro lado, embora a
recolha e tratamento de resíduos sólidos urbanos configure uma clara prestação
de serviços, o que pressuporia a implementação do princípio do
poluidor/pagador, por diversas razões, nunca os municípios abordaram este
assunto desta forma, tendo optado pela institucionalização de uma tarifação indireta
associada ao consumo da água.
Ora, este facto leva a duas
situações que nos parecem merecer uma reflexão profunda e uma inflexão na
orientação política até hoje seguida.
A primeira, os
valores até agora cobrados na tarifa de resíduos sólidos, não cumpre, nem
de forma aproximada, os custos que a gestão deste processo acarreta para cada
um dos municípios.
A segunda, a forma
de tarifação indireta associada ao consumo da água, não garante uma clara perceção
do consumidor que a sua atitude interfere nos custos diretos do município onde
reside. É diferente, e com custos financeiros e ambientais bem diversos, se um
munícipe separa os seus resíduos ou se produz apenas RSU indiferenciado.
Com a aprovação do Plano
Estratégico de Resíduos de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra em 2003, e a
celebração de um Contrato Programa entre a Tratolixo e a AMTRES, que atribui a
gestão do sistema de resíduos à Tratolixo EIM em 2004, e a responsabilidade desta
para financiar os investimentos a realizar para adaptar a capacidade instalada
de tratamento de resíduos, com a contrapartida para a AMTRES de um alisamento
tarifário ao longo de 20 anos, deu-se um passo significativo para a
normalização do sistema mas, três anos volvidos, resulta como insuficiente para
o correto funcionamento do sistema.
A primeira fragilidade
surge de o Plano Estratégico ter sido desenvolvido com pressupostos de
alteração profunda ao nível das recolhas para minimizar os custos de tratamento
e maximizar a reciclagem e a correspondente receita gerada por essa via, mas, o
financiamento assegurado pela Tratolixo ser apenas referente ao tratamento dos
resíduos, pelo que as questões relacionadas com as recolhas continuaram a ser
da responsabilidade de cada um dos municípios.
O tarifário aplicado para o
Tratamento de Resíduos pressupõe determinados comportamentos ao nível das
recolhas. Contudo, para os municípios, e nesta fase de implementação das
alterações nas recolhas, esta situação pode representar um agravamento de custos
na fatura recolhas, que tem promovido e contribuído para uma grande relutância
por parte dos municípios em avançar com as alterações preconizadas no PERECMOS.
No entanto, é um facto que,
a não introdução das alterações nas recolhas desvirtua os pressupostos do
PERECMOS e, mais grave, as condições financeiras do projeto ou seja, o preço a
pagar pelo tratamento dos resíduos.
Os atrasos verificados nos
pagamentos à Tratolixo por parte dos municípios, (presentemente a dívida
ascende a cerca de 20 milhões de euros) são indiciadores de que existe efetivamente
um problema de financiamento desta atividade que merece ser ponderado.
A grande questão que
importa discutir é se o custo inerente ao tratamento de RSU é desajustado dos
valores praticados em outros sistemas.
Com a implementação do
financiamento da Tratolixo através do Project Finance, foi possível garantir o
alisamento do tarifário que a preços constantes de 2004 seria crescente de
25,00 €/ton até 29,00 €/ton em 2008 e seguintes.
Em 2006, o preço praticado
para a totalidade dos RSU recebidos é de 28,37 €/ton.
Em sistemas de grande
dimensão, com quantidades de RSU na mesma ordem de grandeza do da Tratolixo, os
valores praticados são os seguintes:
Valorsul – 22,07
€/ton
(Incineradora, Digestão
Anaeróbia, Unidade de Seleção e Classificação de recicláveis, aterro)
Lipor – 43,50 €/ton
(Incineradora, Compostagem,
Unidade de Seleção e Classificação de recicláveis, aterro)
De notar que no caso da
Tratolixo, o preço reflete a inexistência de aterro próprio e os elevados
encargos com o encaminhamento de resíduos para outros aterros durante 3 anos
(14 milhões de euros/ano aproximadamente o que representa 37,58 €/ton!).
Portanto, o problema não é
uma questão de desajustamento do tarifário praticado nem de soluções propostas,
é um problema de inexistência de meios financeiros para cumprir os compromissos
assumidos pelos municípios nesta matéria.
Chegados a este impasse,
importa recolocar tudo em questão e reavaliar os caminhos e os processos a
seguir, identificar as fragilidades e os problemas e apontar soluções.
2 –Revisão do PERECMOS
Sem falsas modéstias e sem
reservas, pode-se afirmar que o PERECMOS é, conceptualmente, uma excelente
solução para o Tratamento de Resíduos Sólidos dos municípios de Cascais, Mafra,
Oeiras e Sintra.
Seguindo as tendências
preconizadas no mundo ocidental, nomeadamente na Europa, este plano tem uma
grande preocupação ambiental na promoção da reciclagem em detrimento da
eliminação de resíduos.
Aliás, o PERSU II vem
confirmar todas as opções tomadas e a orientação estratégica relativa à forma
de abordar as embalagens (papel/cartão, plástico e vidro) ou a estratégia
nacional para os RUB (resíduos urbanos biodegradáveis).
O trabalho desenvolvido nos
últimos 3 anos pela Tratolixo granjeou-lhe já um forte reconhecimento entre os
restantes sistemas e as entidades envolvidas na gestão de resíduos.
Naturalmente, o Plano foi
construído tendo por base projeções de crescimento urbano, de capitações, de
taxas de reciclagem dos materiais, que importa agora aferir coma experiência no
período 2003 - 2006.
Assim, parece-nos chegado o
momento para produzir a 1ª revisão do PERECMOS, facto que está já a decorrer,
esperando-se a sua conclusão no final de Setembro de 2006.
Do que atrás ficou
referido, há uma componente que deve ser analisada em conjunto – as recolhas. O
verdadeiro sucesso deste Plano passa por verificar que o tratamento e as
recolhas são indissociáveis e as soluções preconizadas são efetivamente
vantajosas quer financeira quer ambientalmente.
Outro aspeto que deverá
resultar desta revisão será o aprofundar de uma solução para o financiamento do
sistema sem constrangimentos e que, em nossa opinião, deverá passar pela
implementação de um tarifário direto aos munícipes, em função da produção efetiva
de resíduos, e que deverá expressar o suporte integral do financiamento do
sistema pelos munícipes.
3 –Novo Sistema Tarifário
Ultrapassar os
constrangimentos existentes deverá passar, em nossa opinião, pela aplicação do
princípio poluidor/pagador e instituir a tarifação direta aos munícipes dos
custos de recolha e tratamento de RSU.
Os valores arrecadados
pelos municípios na tarifa de RSU cobrada na fatura da água são os seguintes:
Resulta daqui que o
Orçamento Municipal tem que financiar uma boa parte desta operação a que se
deverá juntar todos os custos inerentes à limpeza urbana. (Em Cascais
representa um montante de cerca de 10 milhões de euros).
A alteração desta situação
e a passagem dos encargos com a recolha e tratamento do RSU para uma cobrança direta
ao munícipe, tem implicações políticas que importará também avaliar.
No entanto, dadas as
circunstâncias financeiras reais em que se encontram os municípios e atendendo
a que a legislação recentemente produzida prevê que os custos com o tratamento
e recolha dos RSU passem a ser suportados diretamente pelos munícipes, julga-se
o momento certo para uma tomada de decisão neste sentido.
Assim, considera-se que o
novo tarifário deverá consistir em duas parcelas:
-Uma parcela fixa por fogo,
indexada aos investimentos e à disponibilidade de uma infraestrutura para
tratar e recolher os RSU;
- Uma parcela variável
indexada ao RSU efetivamente produzido por cada família e pelo tipo de fluxos
(o valor deverá penalizar o RSU indiferenciado em detrimento dos fluxos
recicláveis).
A Tratolixo encomendou um
estudo a uma empresa de consultadoria para avaliação da possibilidade de
criação de tarifa, forma de cálculo e forma de cobrança, possibilidade de a
Tratolixo poder diretamente cobrar aos munícipes e outras implicações. Este
estudo deverá estar concluído em princípios de Novembro.
Um estudo prévio permite
desde já avaliar o valor médio a cobrar por fogo.
Pode-se concluir que a não
se encontrar uma solução que em definitivo permita alimentar financeiramente a
Tratolixo sem qualquer tipo de constrangimento poderemos a muito curto prazo
ter uma crise insustentável com repercussões graves para os quatro municípios.
Os investimentos a cargo da
Tratolixo estão a sofrer atrasos que se devem em boa medida ao não pagamento
das Câmaras e a consequente canalização de meios afetos ao investimento para a
gestão corrente.
Os atrasos repercutem-se
também nos custos de tratamento!
A Tratolixo foi, nos
últimos 3 anos, financiadora da atividade dos 4 municípios, tendo substituído
os pagamentos que deveriam ter sido efetuados por estes como recurso a
endividamento.
Até quando?...
Rui Frade Ribeiro
4. SENSIBILIZAÇÃO
Promover um aumento significativo
da separação dos resíduos recicláveis pressupunha garantir uma profunda
revolução comportamental nas pessoas e nas empresas ligadas aos resíduos,
nomeadamente as ligadas às recolhas.
Há um aspeto que parece não ter
ainda sido percebido pela quase totalidade dos players dos
resíduos, nomeadamente as autarquias:
A mudança pretendida nos hábitos
das populações não se atinge apenas com sensibilização nas crianças em idade
escolar!
Esta sensibilização é importante,
as crianças são um bom veículo para a mudança de mentalidades, mas, se queremos
atingir resultados no curto ou no médio prazo, as ações de sensibilização têm
forçosamente que ser desenhadas de uma forma mais lata, mais abrangente,
envolvendo todas as faixas etárias da população, sem qualquer espécie de exceção.
O primeiro aspeto a considerar é
a comunicação transparente dos objetivos pretendidos.
Pretendia-se fomentar a
reciclagem de materiais em detrimento da sua eliminação, pelas razões de
poupança energética e de preservação de recursos naturais.
Valorizar um primeiro aspeto de
carácter ambiental.
O segundo aspeto passa por
facilitar a vida a quem adere à tarefa de separação dos resíduos em casa,
permitindo a sua recolha seletiva.
Efetivamente o que se vinha
assistindo era a uma penalização dos que se davam ao trabalho adicional de
separar em casa os resíduos, fazendo por vezes quilómetros com os resíduos nos
seus carros até encontrar um local de deposição adequado.
Para quem não separava, as
Câmaras tratavam de lhes recolher os resíduos à sua porta enquanto quem
separava tinha que percorrer longos caminhos até ao ecoponto mais próximo!
Aumentar a proximidade dos
ecopontos era, pois, uma tarefa fundamental.
Em 2005, quando a Tratolixo
duplicou a quantidade de ecopontos nas Freguesias de Alcabideche e de S.
Domingos de Rana no concelho de Cascais, diminuindo drasticamente a
distância a percorrer pelos munícipes até ao ecoponto mais próximo, se havia
dúvidas ficaram certezas – no mês seguinte recolheram-se o dobro dos resíduos
recicláveis nestas duas freguesias sem qualquer reforço de ações de
sensibilização!
Lição a tirar: as pessoas já
estão relativamente bem sensibilizadas para o ato de reciclar, mas precisam que
este processo seja executável com alguma facilidade.
O terceiro aspeto, de que se
deram alguns passos mas que acabou por ser liminarmente recusado pelas Câmaras,
é no meu entender um aspeto fundamental para criar a estabilidade financeira na
gestão dos resíduos e na viabilização dos investimentos necessários para a sua
recolha, tratamento e destino final – dotar o sistema de uma relação causa
efeito dos custos destes processos e articular o seu pagamento de forma direta
pelos munícipes em detrimento de cobranças diretas ou indiretas realizadas
pelas Câmaras.
O munícipe deve saber quanto lhe
custa uma atitude mais colaborante com a separação dos resíduos ao invés dos
custos acrescidos de uma outra atitude de desinteresse sobre esta matéria!
Na génese do PERECMOS foram
desenvolvidos alguns conceitos que se pretendia que fundamentassem as medidas a
tomar em sede de sensibilização, a saber:
Ø Relegar
para segundo plano o carácter técnico subjacente à gestão dos resíduos
propiciando maior proximidade da população
Ø Considerar
a população como agente dinamizador do processo Mobilização da população para o
projeto para que o cumprimento das metas e objetivos seja sentido como um
trabalho conjunto
Ø Relacionamento
privilegiado com as escolas, coletividades e associações cívicas
Ø Potenciar
boas práticas ambientais
Ø Fornecer
informação alargada dos conceitos subjacentes ao Plano, das suas metas e objetivos
Ø Associar,
ao cumprimento das metas e objetivos, a ideia de que a população está a adotar corretas
práticas ambientais
Ø Divulgar
com periodicidade adequada e de forma alargada, os desvios relativos ao
cumprimento das metas e objetivos.
Passemos em revista as medidas
tomadas ao nível da sensibilização e os objetivos traçados para cada uma delas.
4.1. Campanha “Quem é que trata o nosso lixo?”
Os objetivos traçados para a
primeira campanha de sensibilização realizada pela Tratolixo em 2004 após a
aprovação do PERECMOS eram os seguintes:
Ø Aumentar
e valorizar a notoriedade da TRATOLIXO e dos seus serviços;
Ø Consolidar
a marca TRATOLIXO nos demais concelhos como uma empresa ao serviço da
comunidade;
Ø Aumentar
o incentivo para a política ambiental;
Ø Ser
excelência em serviços;
Ø Melhorar
relações com os públicos externos;
Ø Reforçar
a imagem institucional da TRATOLIXO como uma empresa pioneira, inovadora e
formadora.
A imagem institucional criada
pela Agenda Seting era forte e foram usados meios importantes como a Televisão,
a Rádio, os transportes públicos (linha de comboios do Estoril, autocarros de
Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra e imagens de grande formato em locais de grande
impacto como a A5 e a IC19).
Esta primeira Campanha serviu
para dar a necessária notoriedade à empresa Tratolixo, agora com a
responsabilidade de gerir o sistema de resíduos dos quatro municípios e apelar
à separação dos resíduos.
Com esta Campanha foi também
iniciada a distribuição gratuita de cerca de 100.000 ecopontos domésticos, com
o objetivo de facilitar a vida a quem quer separar os seus resíduos em casa.
Esta campanha foi muito bem
sucedida.
Na apresentação dos resultados
obtidos foram elencados alguns números muito interessantes e que se reproduzem
de seguida:
Þ 20.000 pessoas
visitaram o Promobus, em Dezembro;
Þ 1.500 crianças
foram ensinadas a separar corretamente os R.S.U.
Þ Foram
distribuídos 9.000 ecopontos domésticos;
Þ 3.000 nas
instalações da Tratolixo;
Þ Mais
de 37.000 através das Juntas de Freguesia;
Em 2005 foi planeada uma campanha
de sensibilização, que pretendia dar alguma continuidade à primeira e
consolidar a presença da Tratolixo e dos conceitos da separação e reciclagem
dos resíduos em locais específicos.
Os objetivos traçados foram:
- Legitimar, credibilizar e
divulgar a Tratolixo, S.A. como a empresa que gere os resíduos sólidos urbanos
dos concelhos de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra;
- Identificar e chamar à atenção
para as metas de reciclagem a que se propõe;
- Sensibilização dos munícipes
para a necessidade de separar corretamente os R.S.U.;
- Comunicar a nova marca “A Tratolixo
está…”.
4.2. Projecto Separa
Em 2005 a Tratolixo
decidiu encomendar um estudo ao CEETA e ao ICS sobre as motivações e a
disponibilidade das pessoas para a separação dos resíduos e tentar identificar,
nos diversos públicos-alvo identificados, quais as ações a tomar que melhor
permitam aumentar ou melhorar a participação das pessoas no ato de separar os
resíduos na fonte.
Uma especial motivação para este
estudo consistiu na perceção da reação expectável das pessoas para separação de
um quinto fluxo – os restos de comida.
Este estudo trouxe um manancial
de informação importante à luz do dia para a completa compreensão das
motivações e dos comportamentos das pessoas sobre as matérias alvo do estudo.
Das principais conclusões deste
estudo destacam-se:
Quanto às razões para não
separar, verifica-se que motivos relacionados com os Ecopontos estão na base
desta não-prática, sobretudo o facto de o Ecoponto estar muito distante ou nem
existir (sobretudo no caso de ecopontos domésticos) – ver Gráfico
4.1.
De facto, a falta de condições
logísticas é a causa principal apontada para a não separação. Mas a falta de
vontade de separar RSU, bem como a desconfiança relativamente ao sistema,
revelam-se igualmente causas importantes.
Em contrapartida, verifica-se que
a melhoria das condições logísticas é apontada como a principal condição
necessária ao início do processo de separação de RSU para quem ainda não separa
(ver Gráfico 4.2), assim como a existência de mais informação sobre a separação
de RSU.
Apenas 20% dos não separadores
apontam lógicas de incentivo ou penalização como, por exemplo, a aplicação de
multas a quem não separar.
Um último aspeto relevante deste
estudo foi a avaliação de que tipo de entidade poderia ser um elemento com
maior poder de mobilização das populações para a prossecução do objetivo
separar os resíduos.
Dos inquéritos realizados
resultou o seguinte quadro:
Com estes resultados a Tratolixo
entendeu preparar um segundo projeto com o CEETA e o ICS com vista à
dinamização de um programa denominado ECOFREGUESIAS.
Abrangência do projeto:
4 Municípios
53 Freguesias
837 000 habitantes
Iniciativa ECOFREGUESIA
TRATOLIXO, que incentivaria as Juntas de Freguesia e a sociedade civil para as atividades
de separação de RSU.
4.3. ECOFREGUESIAS
Este projeto, desenvolvido em
rede, pressupunha a possibilidade de espalhar os conceitos da separação de
resíduos como uma “mancha de óleo”, envolvendo não só as Juntas de Freguesia
mas todas as forças vivas presentes em cada freguesia bem como os grupos de
cidadãos mais despertos para esta problemática.
O princípio do “passa a palavra”,
que é ainda hoje a melhor e mais sólida forma de sensibilização para uma
determinada ideia, consistia no principal meio previsto neste projeto.
Um segundo conceito, o “fazer bem
e ambientalmente correto” permitia uma competição salutar entre as freguesias,
cada uma mantendo a preocupação de levar ao maior número possível de pessoas as
boas práticas e dessa forma alcançar o galardão de “Ecofreguesia”.
Pretendia-se promover a criação
de grupos de discussão e dinamização de boas práticas ambientais, as ações de
formação e as medidas práticas a implementar.
Optou-se por dividir as
Freguesias em três grupos de acordo com o critério população e conforme se
exemplifica na figura seguinte:
Foram definidos um conjunto de
critérios que tinham em consideração o número de instituições a envolver no projeto
por freguesia bem como o número de iniciativas dinamizadoras da separação dos
resíduos e o número de iniciativas que envolvessem o espaço público e que se
apresentam no quadro seguinte:
Infelizmente, o arranque deste
projecto aconteceu depois de se ter dado a remodelação do PERECMOS e a saída da
sensibilização da esfera de competências da Tratolixo o que veio a retirar
impacto à execução deste projeto.
Esta foi uma altura difícil de
explicar para quem está por fora dos processos políticos autárquicos.
A atitude da Tratolixo, ao
desenvolver este tipo de projetos, foi tomada como uma ingerência na esfera
estritamente política das Câmaras e foi claramente boicotada por algumas delas.
Estreiteza de visão, classifico
eu tal atitude.
Por vezes o palco é demasiado
estreito para lá colocar alguns egos.
Insistir-se, pode fazer perigar a
integridade física de alguns, podendo mesmo acabar por cair do palco!
Conheço algumas histórias assim,
e também já protagonizei algumas quedas…
5 - ECOCENTROS
Um dos aspetos considerados
fundamentais para o sucesso da estratégia preconizada no PERECMOS era a
necessidade de construir um conjunto de Ecocentros nos quatro municípios
integrantes do sistema.
Foi em 2004 solicitado a cada um
dos municípios a indicação de 2 localizações para que a Tratolixo pudesse
iniciar o processo de realização dos respetivos projetos e consequentemente
lançar os concursos para as empreitadas.
Mafra foi o primeiro município a
indicar duas localizações: Ericeira, com a remodelação do pseudo ecocentro que
lá existia e que era explorado pela Junta de Freguesia de Ericeira, e
Abrunheira, junto às oficinas da CMM.
Estes dois ecocentros foram
construídos e o da Ericeira encontra-se em funcionamento, enquanto o da
Abrunheira aguarda a resolução de alguns problemas de licenciamento.
Em Cascais foram indicadas 2
localizações, Tires e Abuxarda. A Tratolixo procedeu à elaboração dos respetivos
projetos e lançou os concursos para a sua construção.
Quando a obra do Ecocentro de
Tires foi iniciada, logo no início do mandato de 2005/2009, o Pelouro do
Urbanismo era agora detido pelo Vice-Presidente Dr. Carlos
Carreiras que, não concordando com aquela localização, mandou embargar a
obra. Também a obra da Abuxarda, já concursada, teve igual destino.
Numa atitude de desacreditação
técnica da Tratolixo chegou a ser enviada uma delegação da EMAC visitar alguns
Ecocentros na Holanda, provavelmente para tentar concluir que um Ecocentro não
era o que estava vertido nos projetos e no conceito desenvolvido na Tratolixo.
Conclusão tirada que o modelo
Tratolixo era tão bom como o que de melhor se faz na Europa, em 2009
a Câmara de Cascais finalmente indica uma hipótese de localização em
Alvide que, por se encontrar na zona de proteção da Escola Secundária de
Alvide, não foi autorizado pela CCDR.
Em Cascais continuam por
construir os dois ecocentros, correndo-se o risco de que tal já não venha a ser
possível executar no âmbito do PERECMOS, uma vez que a utilização das verbas do
Project Finance terminam em 2010.
Em Oeiras foram indicadas duas
localizações também em 2004, uma em Laveiras e a segunda em Outurela.
Também aqui foram elaborados os projetos
mas surgiram dois tipos de problemas: em Laveiras concluiu-se que o terreno
onde tinha funcionado o Aterro de Laveiras não era propriedade da CMO pelo que
se aguarda a resolução da titularidade do terreno por parte da CMO, enquanto em
Outurela há um problema com os acessos ao terreno pelo que também este projeto
não avançou para execução de obra.
Sintra, neste como em outros
exemplos, só em 2009 apresentou duas hipóteses de localização, não reunindo
nenhuma delas condições para que se possa instalar ecocentros nesses terrenos.
Assim, a exemplo de Cascais,
também Oeiras e Sintra poderão perder a oportunidade de financiar através do
PERECMOS os seus dois ecocentros por, ao longo de 5 anos não conseguirem
encontrar terrenos onde se possa efetuar tal implantação!
PARTE 2
2007 a 2009
Declínio da estratégia inicialmente traçada
Como já se referiu, as eleições
de 2005 trouxeram alterações na composição das várias Câmaras que vieram a
ditar profundas divergências com o modelo que tinha sido desenvolvido para o
Sistema de Resíduos gerido pela Tratolixo.
Objetivos estratégicos e
políticos que colidiam com o PERECMOS e a forma como tinha sido desenhado,
simples “ajustes de contas” ou a incapacidade de antever a médio e longo prazo
as implicações de uma correcta gestão de um sistema com problemas tão complexos
como este, levaram a que os acontecimentos se precipitassem no sentido de
revisão profunda do PERECMOS.
Tornou-se evidente que uma das
premissas, talvez a mais importante, para o sucesso da estratégia delineada,
conseguir gerir de forma integrada o sistema de resíduos de Cascais, Mafra,
Oeiras e Sintra de uma forma horizontal – Recolha / Tratamento / Destino final
- tornara-se impossível de conseguir.
Uns consideravam incomportável
continuar a manter o nível de endividamento das Câmaras para com o sistema mas
outros insistiam em pagar o mínimo no maior prazo possível, outros consideravam
que as recolhas deveriam ser asseguradas pelas Câmaras e não pela Tratolixo,
outros ainda consideravam inaceitável avançar para a recolha seletiva de RUB,
outros consideravam que as tarefas de sensibilização deveriam ser cometidas às
Câmaras, só para falar em alguns assuntos que motivaram opiniões divergentes
entre as Câmaras que constituem o Sistema.
Eram demasiados “outros” para um
só sistema!...
No entanto, passados três anos de
toda esta tempestade, começam a ser tão evidentes os erros cometidos na revisão
do PERECMOS que me arrisco a afirmar que o Sistema da Tratolixo poderia ter
sido um exemplo Nacional na gestão de Resíduos Sólidos Urbanos e hoje é apenas
mais um Sistema!
Quais são afinal os 7 pecados
mortais que destruíram a possibilidade de sucesso do Plano Estratégico
delineado em 2003?
1. A impossibilidade
de garantir uma gestão integrada Recolha – Tratamento – Destino Final manteve,
a partir de 2007 cada Câmara a gerir as recolhas de forma diferenciada,
tornando impossível fazer da Recolha a primeira arma a utilizar para promover
as recolhas seletivas e, por essa via, aumentar as quantidades de resíduos
enviados para reciclagem.
Aliás, em alguns locais, como
parte do município de Sintra, as opções tomadas pela HPEM para a
contentorização, estão a fazer perigar a qualidade mínima dos materiais
recolhidos tendo, nos casos da “famosa” recolha lateral de Sintra, aumentado a
contaminação dos resíduos recicláveis da fileira embalagem.
Já em Oeiras, o município que nos
anos 90 foi o exemplo nacional da reciclagem e da recolha porta-a-porta, toma
em 2009 a decisão, lamentável, de reduzir ou mesmo acabar com esta
forma de recolha.
2. A incapacidade de
implementar a recolha seletiva de RUB tem sido gritante. Para além
das experiências insípidas da Ericeira e dos produtores comercias em Cascais,
não se fez mais nada para implementar a recolha seletiva de RUB que servirá
para alimentar uma das linhas da Digestão Anaeróbia que irá iniciar laboração
em 2010.
Sintra e Oeiras têm aqui um papel
fulcral: não fizeram nada e nem indícios de começar.
Por outro lado, Cascais assume a
posição de só avançar com aumentos de RUB recolhidos seletivamente quando vir
as restantes Câmaras a investir neste processo. (Nem o pai morre, nem a gente
almoça!...).
No entanto, teria sido
fundamental que as quatro câmaras tivessem acordado para este assunto há muito
tempo uma vez que este processo é moroso na fase da formação dos produtores de
RUB para que se consiga um produto com contaminantes controlados.
Ter havido um a dois anos para
solidificar hábitos teria sido muito interessante para o arranque em 2010 da
D.A. da Abrunheira.
Assim, e na prática, vai-se
iniciar a DA com material contaminado com os inerentes problemas de produção
que acarretam…
3. A incapacidade de
implementar a recolha porta-a-porta de recicláveis é outro aspeto
que espelha o fracasso das recolhas entregues a cada uma das Câmaras.
E este processo de recolha, ao
nível das zonas de habitação coletiva, é crucial para um efetivo aumento das
quantidades de recicláveis recolhidas seletivamente: Na habitação coletiva
temos o contentor dos indiferenciados à porta ou na casa dos resíduos enquanto
que para os recicláveis há que procurar o ecoponto mais próximo: para bom
entendedor…
4. A impossibilidade
de uma sensibilização centralizada é outro aspeto de importância
fundamental para o sucesso da implementação do PERECMOS.
Cada Câmara a gerir a sua
mensagem, nos seus timings, por vezes com conteúdos contraditórios com os
municípios vizinhos e integrantes deste sistema não serve para solidificar uma
consciência dos munícipes para a separação e para o correto comportamento na
abordagem dos resíduos no universo do Sistema.
5. A incapacidade de
contornar a asfixia financeira da Tratolixo é um dos maiores
problemas.
As câmaras sistematicamente se
atrasam nos pagamentos dos serviços prestados pela Tratolixo o que leva a
fortes constrangimentos financeiros e de tesouraria a que a Tratolixo está
muitas vezes sujeita.
Uma solução plausível seria
entregar a cobrança deste serviço junto dos munícipes à Tratolixo, passando o
valor a pagar a ser diretamente proporcional à quantidade e nível de separação
dos resíduos e abandonando definitivamente a cobrança de uma Tarifa de RSU por
métodos indiretos, com base no consumo de água.
6. O abandono de partes
fundamentais do Plano inicial de investimentos foi outro erro
crasso.
Com base numa teoria, suicida em
minha opinião, de fusão com a Valorsul a todo o custo, o próprio PERECMOS foi
“adaptado” para lhe dar corpo.
A anulação da Construção da
Central de Triagem levou a que desde meados de 2008 seja a Valorsul a fazer a
triagem do Plástico/Metal/ECAL da fileira embalagem recolhido seletivamente no
sistema da Tratolixo mas, acima de tudo, a empresa ficou sem capacidade de dar
resposta às suas necessidades ficando refém de terceiros para cumprir aquilo
que é a sua atividade principal!
7. A incapacidade de
consolidar um grupo empresarial para os Resíduos sólidos Urbanos é
o último pecado mortal cometido.
A conceção integrada de um grupo
empresarial foi abandonada por falta de visão dos decisores políticos ou seja,
as quatro Câmaras.
Não entenderam, ou não quiseram
entender, as virtuosidades de um grupo empresarial que poderia ser uma trave-mestra
na sustentabilidade do sistema de resíduos dos 4 municípios.
10 A evolução do Sistema
de Resíduos após a reformulação do PERECMOS
Cabe aqui procedermos a uma
análise do que é a evolução dos resultados do sistema gerido pela Tratolixo
nestes últimos três anos (2007-2009).
As opções assumidas na revisão do
PERECMOS em 2007 introduziram alguns sinais que naturalmente resultaram numa
inflexão drástica no modelo e nas orientações subjacentes ao PERECMOS na sua
versão inicial ou mesmo na versão revista em 2006.
A separação clara de
responsabilidades quanto à questão das recolhas demonstrou já o retrocesso no
sistema relativamente aos índices de crescimento das recolhas seletivas e a
recolha de RUB está exatamente no mesmo ponto – nível zero.
Esta regressão nas recolhas de
recicláveis tem também razão de ser nas novas opções tomadas quanto à
sensibilização e a sua passagem para a esfera própria de cada um dos
municípios.
Voltámos à simples sensibilização
nas escolas, com meios à dimensão de cada um dos municípios, mas, aspeto
fundamental, deixou claramente de se assumir os resultados como os de um só
sistema.
Cada um dos municípios mantém-se
apenas a olhar o seu umbigo!
Olhemos para os números.
Os RSU total mantêm-se com uma
evolução que indicia alguma estabilidade, exceção feita ao Município de Mafra
onde se regista ainda algum crescimento urbano, com o consequente aumento da
população.
Denota-se que a evolução dos RSU
estão nos últimos dois anos longe do incremento de 3% ao ano previstos no
PERECMOS e tal deve-se à conjuntura económica e a uma certa estagnação na
expansão urbana e consequente crescimento populacional nos concelhos de Cascais,
Oeiras e Sintra.
Numa situação de implementação do
PERECMOS, como foi projetado inicialmente, gradualmente deveríamos assistir a
uma diminuição dos RSU indiferenciados e a um correspondente aumento dos
recicláveis.
Se tal foi verdade em 2004 e
2005, quando se deu o vertiginoso aumento dos recicláveis fruto das medidas
preconizadas no PERECMOS e consequentemente implementadas pela Tratolixo, com
as mudanças verificadas após o ato eleitoral de finais de 2005, as dúvidas
sobre o PERECMOS expressas por alguns autarcas, funcionaram como travão para a
continuação da implementação de algumas medidas fundamentais previstas no
PERECMOS.
O resultado foi a manutenção das
quantidades de RSU indiferenciado com ligeiras flutuações, que nos últimos dois
anos se ficam mais a dever a alterações nos hábitos de consumo do que
propriamente a uma efetiva alteração do tipo de resíduos recolhidos.
O comportamento diferente do
Município de Mafra está ligado ao já referido processo de crescimento urbano
que se tem vindo ali a registar nos últimos anos.
Já os recicláveis apresentam um
comportamento que espelha claramente as duas velocidades a que este sistema
viveu: a velocidade que representou a implementação do PERECMOS original, no
período de 2003 a finais de 2006 e a estagnação que se verificou após
a revisão do PERECMOS consubstanciada em 2007.
Deve ter-se em atenção que não é
expectável que o crescimento dos recicláveis se verificasse até ao “infinito”
ou mesmo que os incrementos verificados nos primeiros anos e com as primeiras
medidas do PERECMOS se mantivessem com a mesma expressão no decorrer dos anos.
Mas, é absoluta verdade que os
níveis de recicláveis poderiam ter sido substancialmente superiores se o
PERECMOS não tivesse sido amputado da forma como foi.
Mesmo a implementação da recolha seletiva
dos RUB, se tivesse sido iniciada teria um efeito muito importante em toda esta
dinâmica e ajudaria a melhorar os resultados e a participação das populações na
lógica da separação na fonte.
Uma simples análise do que
aconteceu de 2008 para 2009 é indiciador do que se acaba de afirmar.
Com exceção de Oeiras, em todos
os outros três municípios verificamos um decréscimo mais acentuado dos
recicláveis do que o verificado no RSU Indiferenciado.
Tal significa um claro retrocesso
nos hábitos de separação das populações, fruto do desinteresse e do
desinvestimento manifestado pelos responsáveis autárquicos.
Um outro indicador interessante é
o rácio recicláveis/total de RSU.
O comportamento deste indicador
no período 2003 a 2009 não pode ser mais evidente.
Este rácio Recicláveis/RSU Total
identifica que foram dados sinais errados ao sistema e às populações servidas
por ele, uma vez que a evolução que se pretendia crescente dá sinais de
abrandar, estagnar ou mesmo regredir!
Outro aspeto interessante é
acompanharmos a evolução das metas traçadas para o Ano 2023, o horizonte
previsto para o PERECMOS nas suas sucessivas versões.
Já aqui referimos que as metas
definidas no PERECMOS na sua versão original de 2003 poderão ter pecado por
demasiado ambiciosas.
Conscientes disso mesmo, na
primeira revisão do PERECMOS realizada em2006 os valores foram revistos em
baixa.
Mas na revisão de 2007, aquela
que personifica a quase negação do plano inicial, tais são as alterações
introduzidas, torna os objetivos a atingir quase banais.
No entanto, mesmo banais, com o
sistema a comportar-se desta maneira, sem tomar as medidas necessárias de
coordenação nas recolhas, nem essas metas serão atingidas podendo afirmar-se,
sem grande margem para erro, que até se poderá verificar um retrocesso para
níveis inferiores aos já conseguidos!
Olhemos os objetivos traçados nas
sucessivas versões do PERECMOS e não será difícil concluir que os objetivos
traçados, mesmo depois de profundamente diminuídos, nunca serão atingidos se se
mantiver esta ausência de estratégia.
A falta de ambição e de visão
ditou que o sistema da Tratolixo, composto pelos Municípios de Cascais, Mafra,
Oeiras e Sintra, assuma uma opção pela mediocridade, por fazer mais do mesmo.
Igual a todos os sistemas de
resíduos de Portugal, ou de quase todos!...
Esta situação, bem evidenciada
neste gráfico, demonstra que a retórica de definir uma meta, seja ela qual for,
implica que o sistema se mobilize para, no seu todo, desenvolver as ações
necessárias para que seja atingida.
Não o fazendo, como a ação da
Tratolixo exemplifica nestes últimos três anos, para quê definir metas se tanto
interessa atingi-las como não?!
Mas, e que efeitos têm estas
alterações na lógica financeira traduzida no Project Finance ?
Esta redução de recicláveis
recolhidos traduz-se, naturalmente, numa proporcional redução de receitas
provenientes da venda de recicláveis e num aumento significativo de resíduos a
enviar para destino final, o que se repercute num aumento de custos para o
sistema.
O Project Finance pressupunha
uma tarifa, a custos fixos a variar de 25 € a 29 € no quinto ano de vigência,
mantendo-se nesse valor até ao final do projeto.
Ora é bom de entender que o
tarifário não iria aguentar o esforço requerido ao sistema sem se atuar ao
nível das recolhas!
Foi necessário reajustar o
tarifário e foi abandonado o tarifário do Project Finance passando-se a definir
anualmente o tarifário que permita um orçamento base Zero.
A evolução dos tarifários foi o
seguinte:
O que as Câmaras não quiseram
fazer por força de uma estratégia de alteração das recolhas e um investimento
em promover a separação e a reciclagem dos resíduos da fileira embalagem foram
pagar na fatura da Tratolixo!
Veja-se o que foi a evolução dos
pagamentos efetuados pelos Municípios no mesmo período de tempo:
É uma diferença brutal e estamos
obviamente a falar do dinheiro dos contribuintes.
Uma pergunta não posso deixar de
formular:
Qual teria sido a maneira como os
contribuintes teriam preferido que este dinheiro fosse gasto, a investir num
modelo moderno de recolhas de resíduos, ambientalmente responsável, exemplar em
termos nacionais, ou, ao invés, que fosse gasto em aterros e em transportes
para esses aterros?
A resposta não me parece nada
difícil de adivinhar…
11. Os erros e os atropelos
O Conselho de Administração que
tomou posse em 2007 era presidido por Domingos Saraiva, que entrou com a
aura de especialista, mas que cedo demonstrou muitas limitações, muitos
preconceitos e acima de tudo demasiados compromissos.
A entrada dá-se de rompante e
cedo se percebeu que havia incumbências específicas de alvos a abater, de
interromper algumas práticas que punham em causa privilégios que algumas
entidades pretendiam adquirir ou manter, muitos preconceitos sobre as soluções
preconizadas no PERECMOS, sem a humildade dos homens inteligentes de querer
conhecer primeiro antes de criticar.
O diagnóstico feito
por Domingos Saraiva indicava que tudo estava mal, os últimos (e
únicos…) 16 anos da empresa tinham sido geridos em elevada “incompetência”…
Convirá aqui conferir as alianças
estratégicas que foram tomando forma para melhor perceber o rumo dos
acontecimentos.
Como é que aparece o nome
de Domingos Saraiva neste processo?
Domingos Saraiva fez parte
da sua vida ligado ao negócio dos Resíduos (Contenur, NovaFlex, Rumoflex, e a
dada altura com os espanhóis da Tecmed, entretanto adquirida pelo grupo
URBASER. No governo de Durão Barroso, era Ministro do Ambiente Isaltino de
Morais, o nome de Domingos Saraiva é indicado para a administração da
EGF pelo CDS-PP, por iniciativa de Luís Nobre Guedes, com quem mantém
uma relação de amizade.
Com o fim do governo PSD/CDS – PP
chega também ao fim a sua presença na EGF.
Faz uma passagem pela Tríquimica,
na companhia de Pedro Afonso Paulo, atual Vice-Presidente da Comissão
Política Distrital de Lisboa do PSD, com quem solidifica uma amizade, e ambos
saem em conflito com o dono da empresa, com quem mantêm um processo judicial em
curso.
Desenvolve uma relação de
consultoria com a SAPEC tendo, segundo ele, sido o autor de um documento de
orientação estratégica para a área de resíduos daquele grupo.
A SAPEC é, entre outras,
detentora do CITRI, aterro de resíduos industriais banais, que iniciou um
processo de produzir CDR's que têm vindo a ser testados na SECIL.
Pedro Afonso Paulo é atualmente
administrador de algumas empresas do grupo SAPEC.
Luís Realista, com o dono dos
Transportes Bizarro, José Bizarro, iniciou em 2005 ou 2006 uma empresa
associada à SECIL para a gestão do processo CDR's, AVE, assumindo o controlo
desse fluxo para a cimenteira do Outão.
Dos contactos entre o CITRI e a
AVE terá surgido a ideia de apresentar Domingos Saraiva a Ministro
dos Santos, que terá sido o autor da proposta aos restantes presidentes das
Câmaras de Cascais, Oeiras e Sintra para a sua nomeação para Presidente do
Conselho de Administração da Tratolixo.
Luís Realista assume-se como
o alter ego de Domingos Saraiva para as questões técnicas dos
resíduos e, para complementar o controle da empresa, aparece um terceiro nome –
José Lino Ramos – representante da Câmara de Sintra na AMTRES, que
preside, e no Conselho de Administração da Tratolixo, na qualidade de
Administrador não executivo.
É dirigente do CDS - PP e mantém
com Domingos Saraiva um ascendente de carácter político.
Todos as decisões tomadas entre
2007 e 2009 estiveram centradas nestas três pessoas.
Todas as negociações com a EGF,
com as entidades do sindicato bancário, com os empreiteiros das obras em curso,
nomeadamente a Digestão Anaeróbia, o Aterro e a ETARI, tudo foi feito com
grande secretismo até já aparecer bem embrulhado para Conselho de Administração
aprovar.
11.1 A estratégia da
fusão com a Valorsul
O arranque da atividade do
Conselho de Administração saído da eleição intercalar de 2007 dá-se com a
revisão dos princípios constantes no PERECMOS, onde são corrigidos os objetivos
em termos de recolhas seletivas para valores francamente inferiores, colocam-se
em causa os investimentos já realizados ou em curso, iniciam-se os processos de
encerramento ou alienação das empresas do grupo e reorganiza-se toda a
estratégia com um único objetivo – associar a Tratolixo á Valorsul.
Sob a capa do argumento de otimizar
investimentos já realizados por outros sistemas (diga-se Valorsul) a estratégia
é reorientada para viabilizar a quarta linha da Valorsul, agora não com o
excedente de resíduos do sistema Tratolixo mas com os RCD's provenientes dos
rejeitados dos processos da Tratolixo.
Trata-se de uma solução de
conteúdo técnico muito duvidoso.
Construir uma linha de
incineração só para CDR's significa que a Valorsul vai pagar os CDR's à
Tratolixo?
Não consta que tenha tal
intenção.
Mas então a Tratolixo vai pagar a
transformação dos rejeitados em CDR's e paga também à Valorsul a sua
incineração?
Se é para incinerar qual a
vantagem de transformarem CDR's?
Há aqui qualquer coisa mal
explicada, não há?...
Pelo caminho ficou a nova unidade
de Triagem da fileira embalagem na Tratolixo, cuja construção foi abandonada,
estando estes resíduos a ser triados desde meados de 2008 na Valorsul.
Os passos dados neste sentido
foram tão assertivos que não deixam grande hipótese de revisão de posição ou correção
de orientação.
A Tratolixo acabará por ser
integrada na Valorsul, a EGF assumirá uma posição maioritária no sistema e as
quatro Câmaras comerão o que lhes colocarem no prato.
Pessoalmente tenho muitas dúvidas
sobre esta estratégia.
Quanto aos interesses dos
municípios julgo que estarão muito mal defendidos.
O sistema Tratolixo tem uma
dimensão que lhe dá a capacidade de dispor de soluções tecnológicas
suficientes, não tendo necessidade de se associar a outros sistemas para criar
dimensão crítica.
O sistema enquanto municipal, dá
aos municípios que o integram, a total autoridade para definir estratégias,
preços, processos de gestão.
Passando a sistema multimunicipal
esse papel fica reservado ao Estado, pela mão da EGF, do grupo Águas de
Portugal.
A questão financeira também não é
argumento.
A Tratolixo, em representação dos
4 municípios foi capaz de negociar um project finance que
garantiu o financiamento do projeto.
Se o problema fosse entrada de
capital, não se percebe a opção EGF, até porque, mais tarde ou mais cedo, o
estado irá decidir a privatização da área dos resíduos e, nesse pressuposto,
não se compreende a pressa em “engordar a galinha da vizinha” EGF.
Não seria preferível serem as
quatro câmaras a negociar diretamente a entrada de privados no capital da
Tratolixo em vez de negociar de cócoras coma EGF a sua entrada na Tratolixo?
Por último não se reconhece na
EGF uma mais valia de know how que possa ser uma ajuda para as
soluções a implementar no Sistema Tratolixo.
A Tratolixo, com a implementação
do PERECMOS, rodeou-se de um corpo técnico de grande craveira e qualidade que
está ao nível do que melhor existe em Portugal.
Este aspeto tem ainda uma nuance
que no meu entendimento não é despiciendo: a Tratolixo construiu uma forma de
abordagem destes assuntos com uma tónica vincadamente ambiental enquanto que a
EGF nunca abandonou a sua postura economicista na resolução dos problemas dos
seus sistemas.
A Tratolixo e o seu sistema, vão
sair claramente perdedores deste casamento!
11.2 Project Finance –A
montanha nem um rato pariu…
Um dos aspetos mais criticados às
anteriores administrações (2002 – 2005) e (2005 – 2007) foi o Project
Finance negociado para financiar o PERECMOS.
Tudo estava mal, para não variar.
As taxas de juro eram um exagero,
o swap era inacreditável, enfim tudo no contrato de financiamento gerado
através do estava mal feito, a acreditar em inúmeras afirmações deste teor
proferidas por Domingos Saraiva.
Entenda-se, antes de mais, em que
circunstâncias foi este mesmo Project Finance negociado.
A Tratolixo estava em 2003 numa
situação caótica em termos financeiros e as quatro câmaras não estavam numa
situação melhor.
A Tratolixo sem aterro, a ter que
exportar para outros destinos mais de metade dos RSU recebidos, as Câmaras com
dívidas de alguns milhões de euros à Tratolixo, a Tratolixo endividada com
empréstimos e contas caucionadas para garantir as despesas correntes, a urgente
necessidade de iniciar os investimentos previstos no PERECMOS, permite antever
uma “excelente” posição negocial para a Administração da Tratolixo negociar com
a Banca…
Mesmo assim o negócio possível
foi realizado a 17 de agosto de 2005 e, pela primeira vez de há muitos anos, a
Tratolixo teve a oportunidade de gerir os seus investimentos sem
constrangimentos de tesouraria.
Durante dois anos o
relacionamento com o sindicato bancário foi bom e sentia-se um clima de
confiança mútua.
Mas com a entrada em cena da
Administração presidida por Domingos Saraiva tudo se atrapalhou
definitivamente.
Para Domingos
Saraiva era preciso pôr na ordem o sindicato bancário, e numa primeira
reunião fez-se saber isso mesmo aos seus representantes, afirmando a
necessidade de reformulação total do PERECMOS e a eventual
renegociação total das condições do Project Finance.
Resultado desta postura foi o
esperado: se está tudo a ser posto em causa, os bancos passam a exigir o
escrupuloso cumprimento de tudo o que está contratualizado!
Uma das condições
contratualizadas era o pagamento das câmaras ser feito com um prazo máximo de
120 dias, facto que nunca aconteceu desde a assinatura do contrato.
Moral de toda esta história foi a
Tratolixo entrar em incumprimento contratual e só em finais de 2009 se
conseguiu libertar temporariamente dessa situação.
Dois anos com o financiamento do
Project Finance praticamente suspenso foi a grande “vitória” conseguida
por Domingos Saraiva, mesmo com a ajuda e o dispêndio de milhares de euros
em consultorias com o escritório de Nobre Guedes, entretanto contratado para
assessorar a Tratolixo junto da Banca, e com a empresa Premivalor.
Para juntar à
trapalhada, Domingos Saraiva força uma alteração do Contrato Programa
firmado entre a Tratolixo e a AMTRES sem que previamente tenha ouvido o
sindicato bancário, conforme estipulado no contrato de financiamento, o que
gera outra confusão, com alteração unilateral pela Tratolixo das condições
contratuais…
De uma boa relação que existia
inicialmente, criou-se, a partir de 2007, uma relação muito tensa com os bancos
que acabou por trazer grandes constrangimentos ao decorrer dos investimentos.
Volvidos praticamente três anos
de musculadas relações com a banca, eis a Tratolixo de cócoras, mendigando o
pagamento de tranches do financiamento e tentando esconder a falta de
cumprimento dos prazos de pagamentos por parte das Câmaras.
Da revisão das condições
contratuais do financiamento nem notícia…
11.3 Ambiente? Aqui agora
manda a Economia!
A revolução traduzida na
Tratolixo com a aprovação e a implementação do PERECMOS foi a assunção clara de
uma atitude e uma prática fortemente condicionada por ideais de preservação
ambiental, onde sem perder de vista as boas práticas, se desenvolviam todos os
esforços para garantir a melhor qualidade do trabalho realizado ao menor preço.
De 2003 a 2007 existiu
até alguma euforia e orgulho nos trabalhos, estudos e projetos realizados pelo
corpo técnico da Tratolixo, havia o reconhecimento da lufada de ar fresco que
representava a atitude Tratolixo nos meios do Tratamento de Resíduos Sólidos
Urbanos.
Os ambientalistas, de forma
recorrente, usavam e abusavam da Tratolixo como exemplo a seguir.
Foi nesta época que choveram os
convites para participar em diversos eventos, conferências e seminários, onde
foi possível apresentar muitas comunicações sobre os temas em estudo ou
mesmo em implementação na Tratolixo.
A partir de 2007 o mundo parece
ter ficado virado de pernas para o ar, afinal o que era um bom exemplo passou a
ser rapidamente o impossível ou uma utopia, todos os objetivos foram redirecionados
e a economia passou a ser a única disciplina presente na “Universidade
Tratolixo”.
Morreu o ambientalismo, viva o
economicismo!
As boas práticas ambientais
deixaram de ser o objetivo principal dando lugar à visão económica das coisas.
Não se entenda que as orientações
expressas passaram a não considerar as boas práticas ambientais.
O cuidado de fazer de acordo com
a lei manteve-se inalterado, como não podia deixar de ser.
No entanto, a procura de soluções
visionárias para dar corpo à tese de que é possível ter sucesso num modelo
assente na recuperação e reciclagem de materiais dos Resíduos Sólidos Urbanos
esmoreceu ou foi ultrapassada pela visão estritamente económica.
Não quero discutir se é melhor ou
pior. Mas é sem sombra para dúvidas muito diferente!
Esta nova maneira de gerir e as
alterações nos objetivos e nas práticas da empresa transformaram em utopia
aquilo que para mim, para Álvaro Costa e para muitos técnicos
daquela casa era uma certeza!
12. Considerações Finais
A Tratolixo e as quatro câmaras
que compõem o seu sistema de resíduos tiveram uma oportunidade de fazer
história em Portugal com a aprovação do PERECMOS em 2003.
Um Plano Estratégico que
assentava a ação numa primeira prioridade que significava a potenciação do
reaproveitamento dos resíduos sólidos urbanos e/ou a sua reciclagem,
minimizando o seu encaminhamento a destino final.
Convenhamos que a lógica sobre a
justeza deste princípio não parece merecer grande discussão: quando se fala,
por vezes de forma preocupada, na preservação dos recursos naturais, faz todo o
sentido que antes de dar lugar à produção de novos produtos, gastando mais
recursos naturais, se dê a primazia à sua recuperação e reutilização.
Faz lógica também que se
encaminhe para aproveitamento energético apenas a fração de resíduos para o
qual não há maneira de o reutilizar.
Aliás, a produção de energia elétrica
a partir de RSU sempre foi um aspeto que desestabilizou um raciocínio isento
sobre esta matéria.
Sem pretender discutir este
assunto da produção de energia elétrica a partir dos RSU, sempre vou dizendo
que o seu preço é atrativo enquanto for subsidiado o preço de aquisição da
energia produzida.
No dia em que tal deixar de
acontecer…
A construção da unidade de
incineração da Valorsul, empresa do grupo EGF, foi imaginada para quatro fornos
se bem que tenham sido instalados apenas 3.
Este último forno não instalado
sempre esteve à espera de uma decisão da Tratolixo de aderir ao sistema
Valorsul e por essa via viabilizar-se a sua construção.
Os defensores da incineração de
RSU como forma fácil e barata de resolver a questão dos resíduos sempre
estiveram em lugares de responsabilidade na EGF e quando a Tratolixo aprova o
PERECMOS, demonstrando que havia em Portugal quem estivesse na disposição de
investir numa solução alternativa, amiga do ambiente, e com custos de
tratamento semelhantes aos obtidos pela via da incineração, foi um grave
problema para os “amigos do fogareiro”.
O PERECMOS serviu de âncora para
criar espaço alternativo ao Presidente do Instituto dos Resíduos da altura,
Eng. Ascenso Pires, para contrariar o cerco que se instalava a favor da
incineração e culminou com a elaboração do PERSU II que deu o tiro de misericórdia
em hipotéticas intenções de construção de novas unidades de incineração em
Portugal, para além das duas já existentes, em Lisboa e no Porto.
Papel importante para perceber
este fenómeno também esteve a cargo do Ministro do Ambiente da época, Dr.
Amílcar Theias que, suportando todas as pressões, mesmo as que lhe chegavam do
seu próprio Ministério, decidiu em conformidade com o que considerou os
interesses do País e a prática ambientalmente mais correta.
Ao elaborar-se o PERECMOS esteve
sempre presente que tudo o que nele estava previsto implicava uma completa
reorganização dos processos até ali a vigorar nos quatro municípios relativos
aos RSU.
A começar pela estrutura de
decisão, que deveria ser centralizada numa entidade supra câmaras, e que
deveria ter poderes para gerir o processo de forma horizontal, agindo desde a
contentorização, as soluções de recolha, a sensibilização das populações, a
formação dos quadros ligados à problemática dos resíduos nas suas várias
vertentes, e, naturalmente, nos processos de tratamento de resíduos.
Ora como tudo isto envolve
pessoas, porque há muito mais politiquice do que um sério sentido da causa e do
interesse público, os umbigos dos protagonistas no poder municipal atrapalharam
a tomada de decisões acertadas sobre esta matéria e optou-se pela mediocridade.
Uns por ação, outros por omissão,
todos os atuais responsáveis autárquicos deram o seu “importante” contributo
para o fim do PERECMOS pensado em 2003.
Não seria criticável se a opção
tivesse sido por um modelo diferente, mas que se lhe reconhecesse capacidade de
garantir uma boa solução ambiental, com custos controlados para os municípios e
consequentemente para os contribuintes.
Infelizmente não é o caso.
A opção, acredito ainda hoje que
por alguns dos Presidentes de Câmara pouco ou nada foi pensada, antes suportada
em maus conselheiros, resultou numa imensa falta de ambição que equipara este
sistema ao que de pior se faz em Portugal!
O que aconteceu em 2007 fica na
história dos exemplos do que não se deve fazer: tomar decisões sem as estudar
convenientemente.
Domingos Saraiva, chamado para
reformular o PERECMOS de acordo com o que os municípios estavam dispostos a
fazer nesta matéria, pecou pela falta de humildade em tentar perceber a lógica
daquele Plano Estratégico, partiu da ideia preconcebida da impossibilidade de
implementar aquele modelo e retalhou-o até chegar a “uma coisa” que permitisse
“vendê-lo” à Valorsul.
Toda a gente sabe, provavelmente
com a exceção de Domingos Saraiva, que “roupa remendada não faz a mesma
figura…”.
As alterações introduzidas no
PERECMOS em 2007 pela mão de Domingos Saraiva são muito lesivas para
os interesses dos quatro municípios, mas estão mais ou menos de acordo com o
que aqueles demonstraram pretender.
Olhemos para as principais
alterações:
Primeira premissa:
Era bom assegurar o mesmo
tarifário da Valorsul
– Tudo foi redesenhado nesse
sentido tendo mesmo sido abandonados alguns projetos fundamentais para a
autonomia do sistema como foi o caso da Unidade de Triagem da Fileira
Embalagem. O objetivo é, integrar a Tratolixo na Valorsul!
Segunda premissa:
Reduzir o investimento na
recolha seletiva dos Resíduos Urbanos Biodegradáveis
– Reduziram-se as metas dos RUB,
reconfigurou-se a Unidade de Digestão Anaeróbia para passar a tratar RSU
indiferenciado, o que valeu um atraso de um ano na conclusão da unidade e um
custo adicional de mais de sete milhões de euros.
O caricato não termina aqui.
Porque se trata de um Concurso
Público Internacional que tem limites para adicionais, algumas das soluções
agora incluídas foi do mais baratinho que se encontrou com performances dos
primórdios dos TMB, como é o caso da linha de triagem do RSU.
No século XXI projetar uma linha
de triagem sem abridor de sacos ou sem separador balístico é desperdiçar a
recuperação de mais 10% de resíduos da fileira embalagem!
Quem olhar os índices de
recuperação da unidade da Valnor e comparar com os valores de projeto da
Unidade da Abrunheira verifica com facilidade a diferença!
Para cúmulo, três anos passados e
a recolha seletiva de RUB está no mesmo ponto: pertinho do zero!
Terceira Premissa:
Acabar comas estruturas
empresariais na esfera da Tratolixo
– O grupo empresarial em
construção foi desmembrado de forma atabalhoada, fechando umas empresas, (a
COLEU), desistindo de empresas já constituídas mas sem terem iniciado a
laboração (a Tratoplás) ou vendendo “a patacos” a participação na Tratospital.
A dimensão sonhada para o grupo Tratolixo viu-se reduzida desta forma,
inviabilizando as sinergias que este agrupamento de empresas permitiam criar.
Quarta premissa:
Reconfigurar o âmbito de atuação
da Tratolixo
– Reduzir ou anular qualquer
influência futura da Tratolixo na lógica do planeamento ou da sua intervenção
no sistema de Resíduos dos quatro municípios limitando-se a Tratolixo a
assegurar o tratamento de resíduos. Esta forma escolhida significa que vão continuar
uns municípios a financiar a ineficácia dos outros porque cada câmara vai fazer
apenas o que entender e quando o entender.
Atente-se no seguinte: O
Município de Oeiras em 2009 recolheu 14,6% de recicláveis sobre o total de
resíduos enquanto Cascais recolheu 11,7%,Mafra 11,5% e Sintra se ficou pelos
9,1%.
Se os outros municípios tivessem
obtido a mesma performance de Oeiras, 14,6% de recicláveis sobre o total de
resíduos, tal teria significado um acréscimo nas receitas da Tratolixo de
1.645.000 €!
Mas pior, deste valor, o
correspondente à ineficiência de Sintra equivale a 1.096.000 € (67%), enquanto
que a ineficiência de Cascais concorre com 400.000 € (24%) e a de Mafra
com149.000 € (9%).
Por outro lado, se os 4
municípios tivessem atingido 14,6 % de recicláveis sobre o total de resíduos a
tarifa a cobrar pela Tratolixo seria mais baixa 3,40 € por tonelada!
A manter-se esta linha de atuação
iremos assistir a médio prazo à falência do Modelo agora em vigor.
Há quem defenda, e o meu
pensamento não está longe desta ideia, que a reformulação do PERECMOS foi mal
feita propositadamente, para acelerar a integração da Tratolixo na Valorsul que
representará “a grande salvação do sistema Tratolixo”.
Dentro de algum tempo, este ou
outro próximo Governo, terá em mãos a privatização da área empresarial do
estado ligada aos resíduos, já engordada com o sistema da Tratolixo, com um
universo de 850.000 habitantes.
Quais os benefícios que os
munícipes de Cascais, Mafra, Oeiras e Sintra vão tirar disso? Provavelmente
iguais aos que as 4 Câmaras vão alcançar coma forma como estão a gerir o
processo Tratolixo – ZERO!
Olho para trás e fico com um
misto de sentimentos entre o triste e o dececionado.
Ao fim de oito anos
ininterruptamente dedicados a esta causa, todo o esforço, o trabalho, o empenho
colocados no desenvolvimento deste projeto foram por água abaixo.
Provavelmente a culpa maior será
minha, ao não ter sido capaz de demonstrar a justeza deste projeto, a bondade
do modelo proposto, a garantia de que o interesse público era melhor defendido
desta forma.
Dessa inabilidade me
penitencio...
Edição de Autor
Dezembro de 2010
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